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Margem do refino do diesel em recorde: o que é crack

Em 2026, o diesel encareceu no mercado internacional bem mais do que o petróleo de onde ele sai. A diferença tem nome, crack spread, e explica por que o litro importado pesa tanto no bolso de quem roda.

Refinaria com tanques de armazenamento e tubulações sob céu dourado
Refinaria: em agosto, as margens do refino na Bacia do Atlântico bateram recorde, puxadas pelo diesel. Foto: Red Shuheart / Unsplash

O caso: um caminhoneiro percebeu que, nas notícias, o petróleo "subiu 40%" enquanto o diesel lá fora quase dobrou. Ele quer entender de onde vem essa diferença e quanto ela representa em uma viagem.

Resposta curta: a diferença é a margem do refino, o crack spread. Pelos números da EIA, o diesel no atacado americano valia cerca de US$ 28 por barril acima do Brent em 2025 e US$ 88 no terceiro trimestre de 2026. Ao câmbio de R$ 4,9892, isso é algo como R$ 2,78 por litro só de margem, contra R$ 0,89 um ano antes. Numa viagem de 1.000 km a 2,5 km/l, a margem embutida no diesel importado passaria de R$ 356 para R$ 1.110.

O que é crack spread

Uma refinaria compra petróleo e vende derivados. O crack spread (do inglês cracking, a quebra das moléculas no refino) é a diferença entre o preço do derivado e o do petróleo, medida na mesma unidade, normalmente dólares por barril. Para o diesel, a conta simples é:

crack do diesel = preço do diesel (US$/barril) − preço do petróleo (US$/barril)

Como o diesel costuma ser cotado em dólares por galão nos Estados Unidos, multiplica-se por 42, o número de galões num barril. O crack não é o lucro da refinaria, porque não desconta energia, mão de obra e outros custos, mas mostra quanto o mercado está pagando a mais pelo produto do que pela matéria-prima.

Quando há pouco diesel e muito petróleo, o crack sobe. Foi o que aconteceu em 2026: a IEA informa que as margens de refino na Bacia do Atlântico (Europa e Américas) bateram recorde em agosto, puxadas pelo diesel, e que o diesel nos Estados Unidos passou de US$ 200 por barril no início de setembro, 94% acima do nível anterior à guerra no Golfo.

Os números da EIA

A tabela usa o Brent e o preço médio do diesel vendido pelas refinarias americanas (atacado, sem impostos), ambos do relatório de outubro da EIA. O crack é calculado por nós. Os períodos com asterisco são previsões.

Período Brent (US$/barril) Diesel no atacado (US$/galão) Diesel (US$/barril) Crack (US$/barril) Crack em R$/litro
2025 69,04 2,32 97,4 28,4 R$ 0,89
1º tri/26 81,11 2,85 119,7 38,6 R$ 1,21
2º tri/26 102,93 3,81 160,0 57,1 R$ 1,79
3º tri/26 95,95 4,39 184,4 88,4 R$ 2,78
4º tri/26* 104,69 4,23 177,7 73,0 R$ 2,29
2027* 83,74 3,10 130,2 46,5 R$ 1,46

Entre 2025 e o terceiro trimestre de 2026, o Brent subiu 39%; o diesel no atacado, 89%; e o crack, 211%. A EIA prevê que as margens recuem, mas continuem acima da média histórica em 2027, porque os estoques de destilados seguem baixos.

2025US$ 281º tri/26US$ 392º tri/26US$ 573º tri/26US$ 884º tri/26*US$ 732027*US$ 46
Figura 1. Crack do diesel nos EUA (diesel no atacado menos Brent), em dólares por barril, calculado com a Tabela 2 do STEO de outubro da EIA. Asterisco: previsão.
Tubulações vermelhas e brancas de uma unidade industrial
Figura 2. Tubulações de refinaria: o crack spread mede quanto o refinador ganha ao transformar petróleo em diesel. Foto: Christian Harb / Unsplash

Por que o crack disparou

Três movimentos, todos descritos pela IEA no relatório de setembro, explicam a alta:

  1. Menos diesel exportado: o Golfo exportava em agosto pouco mais de um quarto do diesel que vendia antes da guerra, e Golfo e Rússia juntos exportam 1,6 milhão de barris por dia a menos que em fevereiro.
  2. Menos refino: as refinarias do mundo processaram 81,4 milhões de barris por dia em agosto, 4,2 milhões abaixo de um ano antes.
  3. Frete caro: o custo dos navios-tanque subiu com o risco de segurança, o que encarece levar o diesel de onde sobra para onde falta.

Com o diesel escasso e o petróleo relativamente menos escasso, o derivado sobe mais. Para quem compra diesel pronto, como o importador brasileiro, o que importa é o preço do produto, não o do barril.

Onde isso aparece no Brasil

A ANP publica toda semana a cotação do diesel no Golfo dos EUA convertida para reais. Em 25 de setembro, ela estava em R$ 6,24 por litro. Com o dólar daquele dia (R$ 5,1991), isso equivale a cerca de US$ 191 por barril, bem acima do Brent médio de setembro (US$ 114, segundo a EIA). A diferença, de aproximadamente US$ 77, é uma medida aproximada do crack no Golfo naquele momento; as datas não coincidem exatamente, então trate o número como ordem de grandeza.

O diesel A vendido pelas refinarias brasileiras não segue esse preço semana a semana: na semana até 27 de setembro, a média foi de R$ 3,80 por litro, contra paridade de importação de R$ 6,63. Mas o diesel importado, cerca de um terço do consumo, chega com o crack embutido.

A conta numa viagem

Numa viagem de 1.000 km a 2,5 km/l, são 400 litros. A tabela mostra quanto da conta corresponderia só à margem de refino internacional, se todo o diesel fosse comprado a preço de importação. É uma decomposição ilustrativa, não o preço pago no posto.

2025R$ 3561º tri/26R$ 4842º tri/26R$ 7173º tri/26R$ 1.1104º tri/26*R$ 9162027*R$ 583
Figura 3. Margem de refino internacional embutida em 400 litros de diesel (viagem de 1.000 km a 2,5 km/l), pelo crack calculado com dados da EIA e dólar de R$ 4,9892. Ilustração, não preço de bomba.
Período Crack por litro Margem embutida em 400 litros
2025 R$ 0,89 R$ 356
3º tri/26 R$ 2,78 R$ 1.110
2027* R$ 1,46 R$ 583

Erros comuns na leitura das notícias

Perguntas frequentes

O que é crack spread?

É a diferença entre o preço de um derivado, como o diesel, e o preço do petróleo, na mesma unidade. Mede quanto o mercado paga a mais pelo produto refinado.

Quanto está o crack do diesel?

Pelos dados da EIA, cerca de US$ 88 por barril no terceiro trimestre de 2026, contra US$ 28 na média de 2025, com previsão de US$ 46 em 2027.

Quanto isso representa por litro?

Cerca de R$ 2,78 por litro no terceiro trimestre, ao câmbio de R$ 4,9892.

Por que o diesel importado é mais caro que o nacional?

Porque o importador paga o preço internacional do produto, com o crack embutido. O diesel A nacional saiu a R$ 3,80 por litro em média na semana até 27 de setembro, contra paridade de importação de R$ 6,63.

A margem vai cair?

A EIA prevê recuo gradual, mas com margens acima da média histórica até o fim de 2027.

Para ver quanto o diesel pesa na sua viagem, use a calculadora de custo da viagem.

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Fontes e referências

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