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Carne bovina: China cobra 55% e o frete refrigerado

A salvaguarda chinesa sobre carne bovina importada, em vigor desde janeiro, atingiu o limite brasileiro no fim de setembro. Explicamos a regra, o que muda até dezembro e quanto isso mexe na demanda por carretas frigoríficas que levam carne aos portos.

Gado branco e cinza num pasto verde
Gado no pasto: com a cota chinesa esgotada, a carne bovina brasileira busca outros destinos até o fim de 2026. Foto: Juliana e Mariana Amorim / Unsplash

O caso: um transportador com três carretas frigoríficas que faz a rota entre frigoríficos do Centro-Oeste e o porto de Santos viu as programações de embarque para a China sumirem em setembro e quer entender até quando isso dura e quanto frete está em jogo.

Resposta curta: a China aplica desde 1º de janeiro uma salvaguarda com cota anual por país. A do Brasil, de 1,106 milhão de toneladas, se esgotou no fim de setembro, e desde 1º de outubro a carne que passa do limite paga 55% a mais, além da tarifa regular. Em setembro, os embarques para a China caíram para 10,88 mil toneladas, contra 187,27 mil um ano antes: a diferença equivale a cerca de 6.784 cargas de 26 toneladas num mês. A nova cota só abre em janeiro de 2027.

A regra chinesa

O Ministério do Comércio da China (MOFCOM) publicou em 31 de dezembro de 2025 o Anúncio nº 87, com a decisão final de uma investigação de salvaguarda aberta em dezembro de 2024. A conclusão foi que o aumento das importações de carne bovina causou dano grave aos pecuaristas chineses. A medida:

A cota brasileira é a maior entre os fornecedores e cresce pouco ao longo dos três anos:

Ano Cota do Brasil (milhões de t) Comparação com as compras chinesas de 2025 (1,68 mi t)
2026 1,106 66%
2027 1,128 67%
2028 1,151 69%

Em 2025, a China comprou 1,68 milhão de toneladas de carne bovina brasileira, 48% de tudo o que o país exportou, por US$ 8,9 bilhões, segundo a associação dos exportadores (Abiec). A cota de 2026 cobre cerca de dois terços desse volume.

Como a cota acabou

Os frigoríficos anteciparam os embarques no primeiro semestre para garantir espaço na cota. A ocupação chegou a 80% em julho, 90% em 10 de agosto e 100% em 29 de setembro. A alfândega chinesa confirmou o esgotamento, e o MOFCOM avisou em 30 de setembro que a sobretaxa valeria a partir de 1º de outubro. Segundo a imprensa, a China não aceitou o pedido brasileiro para usar parte da cota do Uruguai.

O efeito aparece no comércio exterior: em setembro, os embarques para a China somaram 10,88 mil toneladas, queda de 94,2% sobre setembro de 2025, segundo dados do Comex Stat compilados pela consultoria Safras & Mercado. Os Estados Unidos passaram a ser o principal destino no mês.

China, set/2025187,3 mil tChina, set/202610,9 mil t
Figura 1. Exportação de carne bovina brasileira para a China em setembro de 2025 e de 2026, em mil toneladas (Comex Stat, compilação Safras & Mercado).
Porto com muitos guindastes de contêineres
Figura 2. Terminal de contêineres: a carne congelada chega ao porto em contêineres refrigerados levados por carretas. Foto: Foto K. / Unsplash

O que isso significa para o caminhão

A carne bovina exportada sai dos frigoríficos, a maioria no Centro-Oeste, em São Paulo e no Norte, em carretas frigoríficas ou levando contêineres refrigerados até os portos. Uma carga típica fica em torno de 26 toneladas (premissa nossa, para um contêiner refrigerado de 40 pés). A queda de 176,4 mil toneladas nos embarques para a China em setembro equivale a 6.784 cargas a menos para esse destino num único mês.

Isso não quer dizer que todas essas viagens desapareceram. Parte da carne foi redirecionada para Estados Unidos, Oriente Médio e Sudeste Asiático, e parte ficou no mercado interno, que também é atendido por caminhão. O que muda para o transportador é a distribuição: menos programação para os terminais que embarcam para a Ásia, mais oscilação de demanda até janeiro e possível pressão sobre o valor do frete frigorificado.

Nesse cenário, vale lembrar que o piso mínimo da ANTT continua valendo. Para uma carreta de 6 eixos com carga frigorificada numa viagem de cerca de 950 km (distância aproximada entre a região de Goiânia e Santos), o piso é de R$ 9.218,90: R$ 8.446,55 de deslocamento e R$ 772,35 de carga e descarga.

Distância aproximada Piso frigorificada, 6 eixos Piso conteinerizada, 6 eixos Piso frigorificada por tonelada (26 t)
300 km R$ 3.439,68 R$ 2.911,59 R$ 132,30
600 km R$ 6.107,01 R$ 5.161,17 R$ 234,89
950 km R$ 9.218,90 R$ 7.785,68 R$ 354,57
1.300 km R$ 12.330,78 R$ 10.410,19 R$ 474,26
1.800 km R$ 16.776,33 R$ 14.159,49 R$ 645,24
04.0008.00012.00016.00020.00003006009001.2001.5001.800Distância (km)Piso ANTT (R$)Frigorificada, 6 eixosConteinerizada, 6 eixos
Figura 3. Piso mínimo da ANTT para carreta de 6 eixos (tabela A), carga frigorificada e conteinerizada, com os coeficientes vigentes desde 30/09/2026.

Se o volume de carne para exportação cair e sobrar carreta frigorífica, a tendência é de oferta de frete abaixo do piso. Aceitar esse valor expõe o transportador e o contratante às penalidades previstas na política de pisos mínimos.

O que acompanhar até janeiro

Perguntas frequentes

Quanto a China cobra a mais pela carne brasileira?

Desde 1º de outubro, 55% além da tarifa regular sobre a carne que passa da cota anual; somando os 12% citados pelo governo e pela imprensa, o total chega a 67%.

Até quando vale a sobretaxa?

Até 31 de dezembro de 2026 para a cota deste ano. Em 1º de janeiro abre a cota de 2027, de 1,128 milhão de toneladas. A salvaguarda vale até o fim de 2028.

Quantas cargas de carne para a China deixaram de rodar em setembro?

A queda de 176,4 mil toneladas equivale a cerca de 6.784 cargas de 26 t, parte delas redirecionada para outros destinos.

Qual o piso da ANTT para carne refrigerada em 950 km?

R$ 9.218,90 para carreta de 6 eixos, carga frigorificada, tabela A; em contêiner, R$ 7.785,68.

A queda vale para frango e porco?

Não. A salvaguarda chinesa trata só de carne bovina.

Para calcular o piso da sua rota, use a calculadora de frete mínimo da ANTT.

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Fontes e referências

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