Crédito de R$ 14,5 bi para caminhão vai à sanção
Câmara e Senado aprovaram em 27 e 28 de outubro a volta da linha de até R$ 14,5 bilhões para caminhões novos e seminovos. Ainda depende de sanção e das regras do CMN. Fizemos a conta da parcela de um seminovo e do efeito no custo por km.
O caso: um caminhoneiro autônomo roda cerca de 10 mil km por mês com um cavalo mecânico 6x2 velho e quer trocar por um seminovo de R$ 450.000, dando 20% de entrada. O Congresso aprovou nesta semana uma nova linha de crédito de até R$ 14,5 bilhões para renovar a frota. O que já está valendo, quando o dinheiro chega e quanto a parcela pesa no custo por km?
Resposta curta: ainda não vale. O PL 5.649/2026 passou na Câmara em 27/10 e no Senado em 28/10 e foi à sanção. Juros e prazos ficam com o Conselho Monetário Nacional (CMN). Nas regras da rodada anterior (maio de 2026), o autônomo tinha até 120 meses. Nesse prazo, financiar R$ 360.000 a 11% ao ano dá parcela de R$ 4.853,93, ou R$ 0,49 por km rodado.
O que o Congresso aprovou
O Projeto de Lei nº 5.649/2026, do deputado Augusto Coutinho (Republicanos-PE), foi aprovado pela Câmara na terça-feira, 27 de outubro, como substitutivo do relator Lula da Fonte (PP-PE). No dia seguinte, 28, o Senado aprovou o texto em regime de urgência, com relatoria do senador Fernando Dueire (PSD-PE). Como não houve mudança, o projeto seguiu direto para a sanção presidencial. O presidente tem 15 dias úteis, contados do recebimento, para sancionar ou vetar.
O projeto junta medidas de áreas diferentes: subvenção de R$ 12 por tonelada a fornecedores de cana do Nordeste, uso de até R$ 10 bilhões do superávit do FNDCT em tecnologia agrícola e garantias para o setor aéreo. Para o transporte rodoviário, o que importa é a autorização de até R$ 14,5 bilhões da União para linhas de financiamento reembolsável de renovação de frota.
Esse dinheiro não é novo. A Agência Senado informa que essa parte do projeto retoma um dispositivo da Medida Provisória nº 1.353/2026, publicada em 30 de abril, que criou a ampliação do programa Move Brasil e perdeu a validade em 27 de agosto sem ser votada. Com a MP caducada, a autorização legal para usar os recursos da União deixou de existir. O projeto devolve essa base.
| O que o PL 5.649/2026 prevê | Detalhe |
|---|---|
| Valor | Até R$ 14,5 bilhões da União |
| Quem pode tomar | Transportador autônomo de cargas (TAC), pessoa física cooperada, MEI, empresário individual e empresa de transporte rodoviário ou urbano de cargas ou passageiros |
| O que financia | Caminhão e caminhão-trator novo ou seminovo, ônibus, micro-ônibus e implemento rodoviário novo |
| Seminovos | Só para autônomos, MEIs e cooperados de cargas |
| Exigência para novos | Fabricação nacional e credenciamento no CFI do BNDES |
| Juros e prazos | Não estão na lei; serão definidos pelo CMN |
| Situação em 31/10/2026 | Aguardando sanção |
O que valeu na rodada anterior
Enquanto o CMN não publicar as regras da nova linha, a melhor referência é a rodada aberta pela MP 1.353. A Resolução CMN nº 5.300, de 5 de maio de 2026, fixou as condições, e o BNDES abriu o protocolo em 29 de maio. Os pedidos podiam ser registrados até 28 de agosto, véspera da perda de validade da MP.
| Condição (Resolução CMN 5.300/2026) | Autônomo | Empresa |
|---|---|---|
| Remuneração da União, com sucateamento do veículo antigo | 1% a.a. | 3% a.a. (veículo novo) |
| Remuneração da União, sem contrapartida ambiental | 2% a.a. (seminovo) | 5,5% a.a. |
| Teto da remuneração do banco repassador | 8,8% a.a. | 3% a.a. |
| Prazo máximo | 120 meses | 60 meses |
| Carência máxima | 12 meses | 6 meses |
| Limite por cliente | R$ 50 milhões | R$ 50 milhões |
O BNDES fica com até 1,25% a.a. A nota do CMN não publica a taxa final do contrato, só os componentes. Somados os tetos, o autônomo que sucateava o caminhão velho podia pagar até cerca de 11% ao ano. Na abertura do protocolo, o governo falou em taxas "próximas a 13% ao ano". Por isso a conta abaixo usa os dois números, 11% e 13% ao ano, como cenários. Não são as taxas da nova linha, que ainda não existem.
Outras regras de maio que devem servir de base: seminovo financiado só se fabricado a partir de 2012 e com motor Proconve P-7; veículo novo com padrão P-8; reserva de R$ 2 bilhões para autônomos e cooperados. Pedido sempre por banco credenciado ao BNDES, que analisa o crédito e assume o risco.
Quanto fica a parcela
A conta usa o sistema Price (parcelas iguais), sem carência, sobre R$ 360.000 financiados (o seminovo de R$ 450.000 menos 20% de entrada). Seguro do bem e prestamista, que podiam entrar no financiamento, ficaram de fora.
| Prazo | Parcela a 11% a.a. | Parcela a 13% a.a. |
|---|---|---|
| 60 meses | R$ 7.734,51 | R$ 8.059,80 |
| 84 meses | R$ 6.066,37 | R$ 6.409,83 |
| 120 meses | R$ 4.853,93 | R$ 5.224,27 |
O prazo pesa mais que a taxa. A 11% ao ano, passar de 60 para 120 meses reduz a parcela em R$ 2.880,57 por mês. Em compensação, os juros totais sobem de R$ 104.070 para R$ 222.472. Para o autônomo, o que decide é se a parcela cabe no frete de cada mês, não o total pago no fim.
O peso no custo por km
Para ver o efeito no frete, a parcela entra no custo por km. Premissas do caso: 10 mil km por mês, diesel S10 a R$ 7,32 o litro (média nacional da ANP de 18 a 24/10/2026), consumo de 2,5 km/l, Arla 32 a 5% do diesel a R$ 4,00 o litro, seguro de R$ 1.200 por mês, IPVA e licenciamento de R$ 6.000 por ano, retirada do motorista de R$ 5.000, rastreador de R$ 250, R$ 500 de outros fixos, pneus a R$ 0,22/km, manutenção a R$ 0,25/km e R$ 0,05/km de outros variáveis. São números de referência, não de mercado: troque pelos seus na calculadora.
| Cenário | Parcela | Custo fixo por km | Custo total por km |
|---|---|---|---|
| 60 meses a 11% | R$ 7.734,51 | R$ 1,52 | R$ 5,05 |
| 120 meses a 11% | R$ 4.853,93 | R$ 1,23 | R$ 4,76 |
| 120 meses a 13% | R$ 5.224,27 | R$ 1,27 | R$ 4,80 |
Para comparar: o piso da ANTT para carga geral, carreta de 6 eixos, numa viagem de 1.000 km, é de R$ 8,21 por km (Tabela A, coeficientes da Portaria SUROC nº 22/2026, em vigor desde 30/09). No cenário de 120 meses a 11%, sobra R$ 3,45 por km rodado carregado antes de contar o retorno vazio e o tempo parado.
O que fazer agora
- Não assine nada contando com a linha nova. Ela só existe depois da sanção e da resolução do CMN. Quem promete "taxa do Move" hoje está oferecendo outra coisa.
- Deixe a documentação pronta. RNTRC ativo como TAC, CNH, comprovante de renda dos últimos meses e documento do caminhão antigo. Na rodada de maio, sucatear o veículo velho baixava a parte da União de 2% para 1% ao ano.
- Confira o ano e o motor do seminovo. Em maio, só entravam caminhões fabricados a partir de 2012 com motor P-7. A regra pode mudar, mas é a referência.
- Faça a conta da parcela contra o frete, não contra o salário. Use a calculadora de custo por km com o seu km mensal real.
- Procure o banco credenciado. O BNDES não atende o autônomo direto nessa linha; o pedido entra pelo banco ou cooperativa de crédito habilitados.
Perguntas frequentes
A linha de R$ 14,5 bilhões já está aberta?
Não. Em 31/10/2026 o PL 5.649/2026 aguardava sanção. Depois dela, o CMN precisa publicar as taxas e prazos, e o BNDES abrir o protocolo para os bancos.
Os juros serão de 1% ao ano?
Não. Em maio, 1% ao ano era só a remuneração da União na operação do autônomo que sucateava o caminhão velho. Por cima dela entram a remuneração do banco repassador (até 8,8% a.a.) e a do BNDES (até 1,25% a.a.). A taxa final da linha nova depende do CMN.
MEI pode financiar caminhão seminovo?
Pelo texto aprovado, sim: seminovos ficam restritos a autônomos, MEIs e pessoas físicas cooperadas no transporte de cargas. Empresas só financiam veículo novo.
Quem perdeu o prazo de agosto pode pedir de novo?
Pode, quando a nova linha abrir. O protocolo da rodada anterior fechou em 28 de agosto de 2026. O projeto recria a autorização para uma nova rodada.
Precisa entregar o caminhão velho?
Não era obrigatório em maio. Mas quem comprovava o sucateamento tinha a menor remuneração da União. A regra da nova rodada sai na resolução do CMN.
Fontes e referências
- Pacote de apoio a agricultura, transporte e aviação vai à sanção – Agência Senado (28/10/2026) — Aprovação no Senado em 28/10, até R$ 14,5 bi para veículos novos e seminovos, retomada de dispositivo da MP 1.353/2026, que perdeu eficácia em 27/08.
- Câmara aprova apoio financeiro a produtores de cana-de-açúcar no Nordeste – Agência Câmara (27/10/2026) — Aprovação do PL 5.649/2026 na Câmara; mantém autorização de até R$ 14,5 bi para renovação de frota (relator Lula da Fonte).
- CMN regulamenta o programa Move Brasil para renovação da frota de transporte – Ministério da Fazenda — Resolução CMN nº 5.300, de 05/05/2026: remunerações de 1%, 2%, 3% e 5,5% a.a., teto de 8,8% a.a. para o banco (autônomo), BNDES até 1,25% a.a., 120 meses e 12 de carência para autônomo.
- Move Brasil: com R$ 21,2 bi, BNDES abre operação para renovar frota de caminhões e ônibus – Secom/PR — Abertura em 29/05/2026; seminovos a partir de 2012 com P-7; protocolo até 28/08/2026; juros 'próximos a 13% ao ano'; R$ 2 bi para autônomos e cooperados.
- ANP – Síntese semanal do comportamento dos preços dos combustíveis nº 43/2026 — Semana de 18 a 24/10/2026: diesel S10 a R$ 7,32/l (média Brasil), −0,27% na semana.
- ANTT atualiza coeficientes do Piso Mínimo do Frete (Portaria SUROC nº 22/2026) — Coeficientes da Tabela A em vigor desde 30/09/2026.
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