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Agregado ou independente: o que muda e a conta

A lei separa o autônomo agregado, que trabalha com exclusividade e remuneração certa, do independente, que pega frete de viagem em viagem. A conta compara o mesmo caminhão de 5 eixos nos dois regimes, com rodagem, km vazio e piso da ANTT.

Vista aérea de veículos de carga estacionados num pátio, ao lado de uma plantação
No agregamento, a rodagem garantida pela transportadora pesa tanto quanto o preço por km. Foto: Marcin Jozwiak / Unsplash

O caso: um caminhoneiro autônomo com cavalo e carreta de 5 eixos recebe proposta para ficar agregado a uma transportadora, rodando cerca de 11.000 km carregado por mês, pago pelo piso da ANTT. Hoje ele trabalha como independente: pega frete de viagem em viagem, consegue cobrar 15% acima do piso, mas roda 2.000 km vazio por mês. Qual regime deixa mais dinheiro no fim do mês?

Resposta curta: a lei define o agregado como quem trabalha com exclusividade e remuneração certa e o independente como quem faz frete eventual, ajustado por viagem. Desde a Lei 15.485/2026, os dois têm direito ao piso da ANTT. Com as premissas da redação, o agregado fecha o mês com R$ 36.874,09 e o independente com R$ 25.597,24. Para empatar, o independente precisaria cobrar cerca de 32% acima do piso.

O que a lei diz sobre agregado e independente

As duas figuras estão no art. 4º da Lei nº 11.442/2007, a lei do transporte rodoviário de cargas por conta de terceiros. É o contrato que define em qual regime o Transportador Autônomo de Cargas (TAC) vai trabalhar.

Ponto TAC-agregado TAC-independente
Definição legal Coloca veículo próprio ou sob sua posse a serviço do contratante Presta serviço eventual
Exclusividade Sim Não
Remuneração Certa, combinada no contrato Frete ajustado a cada viagem
Piso da ANTT Obrigatório (art. 4º, § 6º, incluído pela Lei 15.485/2026) Obrigatório (mesmo dispositivo)
Vínculo de emprego Não gera (arts. 4º, § 5º, e 5º) Não gera
Pagamento Em conta indicada pelo TAC, informada no DT-e (art. 5º-A) Mesma regra

Três pontos costumam gerar dúvida.

Não é emprego. A lei diz que as relações do contrato de transporte são comerciais e não geram vínculo de emprego. Desde a Lei 14.440/2022, as ações sobre esses contratos vão para a Justiça comum, não para a Justiça do Trabalho.

O piso vale para o agregado. O § 6º do art. 4º, incluído pela Lei 15.485/2026, deixou isso escrito na lei: a remuneração do agregado e a do independente devem observar os pisos da Lei 13.703/2018. A exceção é o transporte internacional.

O frete só pode ser pago em conta. O art. 5º-A manda pagar o frete em conta de depósito ou conta de pagamento escolhida pelo TAC, em nome dele, do cônjuge, do companheiro ou de parente até o segundo grau. É proibido pagar por outro meio, e as tarifas bancárias ficam com quem paga. A mesma regra vale para a empresa com até três veículos registrados no RNTRC, que a lei equipara ao TAC.

As premissas da conta

A comparação abaixo usa o mesmo caminhão nos dois regimes. Só mudam a rodagem, o quilômetro vazio e o preço do frete.

Premissa Agregado Independente
Km carregado por mês 11.000 8.000
Km vazio por mês 0 (a transportadora arruma o retorno) 2.000
Preço por km carregado Piso da ANTT: R$ 8,14 Piso + 15%: R$ 9,37
Parcela, seguro, IPVA, rastreador Iguais Iguais
Diesel S10 R$ 7,31/l R$ 7,31/l
Consumo 2,7 km/l 2,7 km/l

O piso por km é o da tabela A da ANTT para carga geral, 5 eixos, numa viagem de 500 km: R$ 4.071,76 no total. O diesel é a média nacional do S10 na pesquisa da ANP de 25 a 31 de outubro de 2026. Os custos fixos (parcela de R$ 8.500, seguro de R$ 1.200, IPVA e licenciamento de R$ 5.500 por ano, retirada de R$ 4.500 do próprio autônomo) e os variáveis (pneus, manutenção e ARLA 32) são estimativas da redação. Troque pelos seus números na calculadora de custo por km.

O resultado do mês

Item Agregado Independente
Receita de frete R$ 89.578,72 R$ 74.920,38
Custo fixo por km R$ 1,41 R$ 1,55
Custo total por km R$ 4,79 R$ 4,93
Custo do mês R$ 52.704,63 R$ 49.323,15
Sobra no mês R$ 36.874,09 R$ 25.597,24
AgregadoR$ 36.874IndependenteR$ 25.597
Figura 1. Sobra mensal do mesmo caminhão 5 eixos nos dois regimes, com as premissas da redação.

A diferença vem de dois lugares. O primeiro é o custo fixo diluído: o agregado roda 11.000 km, e cada km carrega uma fatia menor da parcela e do seguro (R$ 1,41 contra R$ 1,55). O segundo é o km vazio: o independente gasta diesel, pneu e manutenção em 2.000 km que ninguém paga.

Com essas premissas, o independente precisaria cobrar cerca de 32% acima do piso para igualar a sobra do agregado. Se ele consegue retorno carregado com frequência, ou fretes bem acima da tabela, a conta vira a favor dele.

Mão assinando um documento sobre a mesa
Figura 2. É o contrato que define se o autônomo trabalha como agregado ou como independente. Foto: Scott Graham / Unsplash

Por que o piso por km muda com a distância

A tabela da ANTT tem duas partes: um valor por km rodado (deslocamento) e um valor fixo de carga e descarga. Em viagens curtas, o valor fixo pesa mais, e o piso por km sobe. Isso importa para o agregado que faz rota curta: um contrato mensal "por km" calculado com o piso de viagem longa pode ficar abaixo da tabela.

Distância da viagem Piso total (5 eixos, carga geral) Piso por km
100 km R$ 1.340,40 R$ 13,40
300 km R$ 2.706,08 R$ 9,02
500 km R$ 4.071,76 R$ 8,14
1.000 km R$ 7.485,96 R$ 7,49
2.000 km R$ 14.314,36 R$ 7,16
0369121504008001.2001.6002.000Distância da viagem (km)R$ por kmPiso por km
Figura 3. Piso mínimo por km da ANTT, tabela A, carga geral, 5 eixos, conforme a distância.

Quando o independente sai na frente

A conta muda quando o independente consegue três coisas ao mesmo tempo: carga de retorno na maior parte das viagens, fretes acima da tabela em rotas com pouca oferta de caminhão e pouco tempo parado esperando carga. Nessas condições, a liberdade de escolher o frete compensa a falta de rodagem garantida.

O agregado, por outro lado, perde vantagem quando o contrato não garante quilometragem. Se a transportadora deixa o caminhão parado uma semana por mês, a rodagem cai, o custo fixo por km sobe e a sobra pode ficar abaixo da do independente. Por isso, a cláusula de rodagem mínima vale tanto quanto o preço por km.

Uma forma simples de decidir é refazer a tabela acima com três cenários: o mês bom, o mês normal e o mês ruim de cada regime. Quem tem pouca reserva para pagar a parcela em mês fraco tende a preferir a previsibilidade do agregamento, mesmo ganhando um pouco menos no mês bom.

O que olhar no contrato de agregamento

O agregado troca liberdade por previsibilidade. Antes de assinar, vale conferir:

Erros comuns

Perguntas frequentes

Caminhoneiro agregado tem carteira assinada?

Não. A Lei 11.442/2007 diz que o contrato de transporte é uma relação comercial e não gera vínculo de emprego, tanto para o agregado quanto para o independente. Disputas sobre o contrato vão para a Justiça comum.

O piso da ANTT vale para o agregado?

Sim. A Lei 15.485/2026 incluiu o § 6º no art. 4º da Lei 11.442: a remuneração do TAC-agregado e do TAC-independente deve observar o piso mínimo de frete. A regra não se aplica ao transporte internacional.

O agregado pode trabalhar para outra transportadora?

Pela definição legal, o agregado presta serviço com exclusividade ao contratante. Trabalhar para outros é a característica do independente. Se o contrato permitir, o regime passa a ser outro e isso deve estar escrito.

Como o agregado recebe o frete?

Em conta de depósito ou conta de pagamento indicada por ele, em nome dele ou de parente próximo, com os dados informados no DT-e. Qualquer outro meio de pagamento é proibido, e as tarifas bancárias ficam com quem paga.

Agregado pode colocar outro motorista no caminhão?

A lei permite que o TAC ceda o veículo a outro profissional como TAC-auxiliar, em regime de colaboração, sem vínculo de emprego. O auxiliar contribui para a Previdência da mesma forma que o TAC.

Qual regime compensa mais?

Depende de quanto o caminhão roda e de quanto roda vazio. Com as premissas desta conta, o agregado sobra mais porque roda mais e não volta vazio. Refaça a conta com os seus custos na calculadora de custo por km.

Faça a conta: Custo por km →

Fontes e referências

Conferimos datas, valores e vigência nas fontes acima antes de publicar. Erros e atualizações: veja a política editorial.

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