Custo por km do caminhoneiro autônomo: a conta do mês
Diesel é só uma parte. Montamos, item por item, o mês de um caminhoneiro autônomo com carreta de 6 eixos e mostramos quanto custa cada quilômetro rodado, quanto disso é fixo e quando o frete deixa de pagar a conta.
O caso: um transportador autônomo (TAC) roda com carreta de 6 eixos, cavalo financiado, e fecha o mês com cerca de 10 mil km no hodômetro, entre trechos carregados e vazios. Ele quer saber quanto custa cada quilômetro, para decidir que frete aceitar.
Resposta curta: com as premissas abaixo, o custo total é R$ 5,55 por km, ou R$ 55.550 no mês. Desse valor, R$ 1,91 por km são custos fixos (R$ 19.050 por mês) e R$ 3,65 por km são variáveis, com o diesel sozinho respondendo por R$ 2,83.
1. Fixos e variáveis: por que separar
O custo por km mistura duas naturezas de despesa. Os fixos chegam todo mês, rodando ou não: parcela, seguro, impostos do veículo, a retirada do próprio motorista. Os variáveis nascem a cada quilômetro: diesel, ARLA 32, pneus, manutenção.
A separação muda a decisão. Um frete que paga o variável e sobra algum dinheiro ajuda a cobrir os fixos, mesmo que não pague o custo total; um que não paga nem o variável é prejuízo certo. E como os fixos são divididos pelos quilômetros do mês, o mesmo caminhão tem custo por km diferente em mês cheio e em mês fraco.
A Lei nº 11.442/2007 define o TAC como a pessoa física que tem no transporte rodoviário de cargas a sua atividade profissional. Na prática, isso quer dizer que o caminhoneiro é ao mesmo tempo dono, gestor e empregado do próprio negócio, e o salário dele precisa estar dentro da conta.
2. Os custos fixos do mês
Os valores são premissas de exemplo para um cavalo 6x2 seminovo financiado com carreta de três eixos. Cada caminhoneiro deve trocar pelos seus.
| Custo fixo | Valor de exemplo | Observação |
|---|---|---|
| Parcela do financiamento | R$ 9.000,00/mês | Cavalo e carreta |
| Seguro | R$ 1.500,00/mês | Casco e responsabilidade civil |
| IPVA e licenciamento | R$ 6.000,00/ano | Entra como R$ 500,00 por mês |
| Retirada do motorista-dono | R$ 6.000,00/mês | O "salário" do autônomo |
| Rastreador e monitoramento | R$ 250,00/mês | Muitas vezes exigido pelo seguro |
| Outros fixos | R$ 1.800,00/mês | Contador, celular, taxas, contribuição previdenciária |
| Total | R$ 19.050,00/mês | R$ 1,91 por km em 10 mil km |
O item que mais costuma faltar é a retirada. Quem não põe o próprio salário na conta descobre, no fim do ano, que trabalhou de graça: o caminhão "pagou-se", mas o motorista não recebeu.
3. Os custos variáveis por km
| Custo variável | Premissa | R$ por km |
|---|---|---|
| Diesel S10 | R$ 7,35/l e 2,6 km/l | R$ 2,83 |
| ARLA 32 | 5% do diesel, a R$ 3,80/l | R$ 0,07 |
| Pneus (novos e recapagens) | estimativa | R$ 0,32 |
| Manutenção (óleo, freios, peças, mão de obra) | estimativa | R$ 0,38 |
| Lavagem, lubrificação e miudezas | estimativa | R$ 0,05 |
| Total variável | R$ 3,65 |
O preço do diesel é a média nacional do S10 no levantamento semanal da ANP de 27 de setembro a 3 de outubro de 2026. Ele varia por estado e por posto; quem abastece sempre na mesma região deve usar o preço local. O consumo de 2,6 km/l é uma média plausível para um conjunto de 6 eixos que roda parte do tempo carregado e parte vazio; o número certo sai da média de tanque cheio a tanque cheio do próprio caminhão.
A ARLA 32 entra pela proporção do diesel. A 2,6 km/l, o caminhão queima 0,385 litro de diesel por km; 5% disso são 0,0192 litro de ARLA por km, que a R$ 3,80 dá R$ 0,07. Parece pouco, mas em 10 mil km são R$ 730,77 no mês. Motores mais novos podem consumir uma proporção maior; o manual e a média real do caminhão mandam.
Pneus e manutenção são os itens mais difíceis de estimar, porque o gasto vem em degraus: um jogo de pneus de tração, uma revisão de embreagem. A forma mais segura é somar o que se gastou em 12 meses e dividir pelos quilômetros rodados no mesmo período.
4. A conta do mês, inteira
Somando tudo, o custo é de R$ 5,55 por km. Multiplicado pelos 10 mil km, dá R$ 55.550,00 no mês: R$ 19.050,00 de fixos e R$ 36.500,00 de variáveis. O diesel sozinho leva R$ 28.269,23, 51% do total.
5. Quanto a quilometragem muda o custo
O mesmo caminhão, com os mesmos gastos fixos, tem custo por km bem diferente conforme rode mais ou menos.
| Km no mês | Fixo por km | Custo total por km | Custo do mês |
|---|---|---|---|
| 6.000 | R$ 3,17 | R$ 6,82 | R$ 40.950 |
| 8.000 | R$ 2,38 | R$ 6,03 | R$ 48.250 |
| 10.000 | R$ 1,91 | R$ 5,55 | R$ 55.550 |
| 12.000 | R$ 1,59 | R$ 5,24 | R$ 62.850 |
| 14.000 | R$ 1,36 | R$ 5,01 | R$ 70.150 |
Um mês de 6 mil km, com o caminhão parado na fila do porto ou esperando carga, leva o custo a R$ 6,82 por km, R$ 1,27 a mais que no mês de 10 mil km.
O diesel mexe no outro sentido. Com 10 mil km, cada R$ 0,50 no litro muda o custo em cerca de R$ 0,19 por km: a R$ 6,85/l, o total seria R$ 5,36; a R$ 7,85/l, R$ 5,75.
6. Caminhão quitado não tem custo zero
Quando a última parcela é paga, a tentação é tirar esse item da conta. Mas o caminhão continua perdendo valor e um dia precisará ser trocado. O certo é substituir a parcela por uma reserva de depreciação. No exemplo, trocando a parcela de R$ 9.000 por uma reserva de R$ 5.000 por mês, o custo cai para R$ 5,15 por km, e não para R$ 4,65, como seria se a parcela simplesmente sumisse.
7. Comparando com o frete
Suponha que o autônomo feche viagens de 1.000 km de carga geral pelo piso da ANTT para 6 eixos, R$ 8.206,63, mas rode 30% a mais vazio para buscar a próxima carga. A receita por km rodado fica em R$ 6,31.
Contra o custo de R$ 5,55, sobra R$ 0,76 por km. O ponto de equilíbrio, quilometragem mínima para os fixos serem pagos, é de 7.154 km por mês. Abaixo disso, o piso não paga a operação desse caminhão.
Por isso o piso da ANTT, que é calculado sobre custos médios, deve ser lido como chão legal, não como preço justo para todos. Um caminhão mais caro, com mais quilômetro vazio ou com diesel mais alto na região, precisa de frete acima dele.
8. Usando o número para cotar uma viagem
O custo por km serve para responder, em minutos, se uma oferta vale a pena. Imagine uma carga de 900 km com o mesmo conjunto, em que o caminhão terá de rodar mais 300 km vazio até a próxima coleta. São 1.200 km de operação.
| Item da cotação | Valor |
|---|---|
| Custo total da operação (1.200 km × R$ 5,55) | R$ 6.666,00 |
| Só o custo variável (1.200 km × R$ 3,65) | R$ 4.380,00 |
| Piso ANTT, carga geral, 6 eixos, 900 km | R$ 7.453,16 |
| Frete que cobre o custo total com 10% de margem | R$ 7.332,60 |
O piso da viagem, R$ 7.453,16, cobre o custo total da operação nesse cenário. Se o frete oferecido ficar entre o custo variável e o custo total, a viagem ajuda a pagar os fixos, mas não remunera o mês inteiro; aceitar várias assim é o caminho para o endividamento. Abaixo do custo variável, o caminhoneiro paga para rodar.
9. O que fica de fora desta conta
Alguns gastos não entram no custo por km porque têm regra própria ou dependem de cada viagem. O pedágio deve ser pago pelo contratante, por vale-pedágio, além do frete. A alimentação e o pernoite na estrada saem do bolso do autônomo; quem não os inclui na retirada deve somá-los como custo por dia de viagem. Multas, avarias e franquia de seguro são riscos, não custos previsíveis, e pedem uma reserva. Já os tributos sobre o frete dependem do enquadramento de cada TAC e devem ser conferidos com o contador.
10. Checklist da conta
- Todos os fixos, inclusive a retirada. Sem salário, a conta mente.
- Quilometragem real, com os vazios. O hodômetro do mês, não só os km dos fretes.
- Consumo medido. Média de tanque cheio a tanque cheio, separando carregado e vazio se possível.
- Pneus e manutenção pela média de 12 meses. Gastos pontuais distorcem um único mês.
- Pedágio fora. Ele é somado ao frete e pago pelo contratante como vale-pedágio; não entra no custo por km.
- Revisão a cada reajuste de diesel. Uma alta no preço muda o custo no mesmo dia.
Perguntas frequentes
Quanto custa o km rodado de uma carreta 6 eixos?
No exemplo, R$ 5,55 com 10 mil km por mês e diesel a R$ 7,35/l: R$ 1,91 de fixos e R$ 3,65 de variáveis.
O diesel é quanto do custo por km?
R$ 2,83 por km, cerca de 51% do total no exemplo.
Se eu rodar só 8 mil km, quanto sobe?
O custo vai a R$ 6,03 por km, porque os mesmos R$ 19.050 de fixos se dividem por menos quilômetros.
Quantos km preciso rodar para pagar os fixos recebendo o piso?
Com receita de R$ 6,31 por km rodado, 7.154 km por mês.
E se o caminhão já estiver quitado?
Com reserva de depreciação de R$ 5.000 no lugar da parcela, o custo fica em R$ 5,15 por km.
Na calculadora de custo por km, os campos já vêm com este exemplo; troque cada valor pelos do seu caminhão para ver o seu custo e a sua margem.
Fontes e referências
- Lei nº 11.442/2007 — Definição do transportador autônomo de cargas (TAC) e regras de pagamento do frete
- Lei nº 13.703/2018 — Piso mínimo de frete e fatores de custo considerados na metodologia
- Portaria SUROC nº 22/2026 (ANTT) — Piso de carga geral com 6 eixos usado para comparar receita e custo
- ANP · Síntese semanal de preços, edição 40/2026 — Diesel S10 a R$ 7,35/l, média nacional da semana de 27/09 a 03/10/2026
- ANP · Levantamento de preços de combustíveis — Preços por estado e município para ajustar a premissa de diesel
Conferimos datas, valores e vigência nas fontes acima antes de publicar. Erros e atualizações: veja a política editorial.