Frete de caminhão toco para entregas de 150 km
O toco é o caminhão das entregas regionais: sai cedo, roda 150 km, descarrega e volta. Mostramos quanto a tabela da ANTT garante por viagem, quanto ela custa ao dono do caminhão e a partir de quantas viagens por semana o mês fecha no azul.
O caso: um caminhoneiro autônomo com um toco (2 eixos, 4x2) faz entregas de carga geral paletizada para um atacadista, de um centro de distribuição a uma cidade a cerca de 150 km. Cada contrato ocupa o caminhão inteiro (lotação), na Tabela A, e a volta é feita vazia.
Resposta curta: o piso de cada viagem é R$ 1.062,91, sem pedágio. A ida e volta de 300 km custa R$ 516,27 em despesas variáveis. Com os custos fixos do exemplo, o mês só fecha a partir de 4,5 viagens por semana recebendo o piso; com 5 viagens semanais sobram cerca de R$ 1.194 por mês.
1. O piso de uma viagem curta
Para o caminhão de 2 eixos com carga geral, a Portaria SUROC nº 22/2026 fixou CCD de R$ 4,0738 por km e CC de R$ 451,84 por viagem. Com 150 km:
| Parcela | Cálculo | Valor |
|---|---|---|
| Deslocamento | 150 km × R$ 4,0738 | R$ 611,07 |
| Carga e descarga | valor fixo | R$ 451,84 |
| Piso da viagem | R$ 1.062,91 | |
| Piso por km da ida | ÷ 150 km | R$ 7,09 |
| Piso por km rodado (ida e volta) | ÷ 300 km | R$ 3,54 |
Em viagens curtas, o CC pesa: aqui ele responde por 43% do piso. É ele que remunera o tempo de carregar e descarregar, que num toco de entrega regional pode tomar tanto tempo quanto a estrada.
2. Como o piso por km muda com a distância
O valor por quilômetro despenca à medida que a distância cresce, porque o CC é diluído. Por isso não faz sentido aplicar ao toco um "preço por km" único para todas as entregas.
| Distância | Piso toco (2 eixos) | Por km | Piso truck (3 eixos) | Por km |
|---|---|---|---|---|
| 50 km | R$ 655,53 | R$ 13,11 | R$ 802,75 | R$ 16,05 |
| 100 km | R$ 859,22 | R$ 8,59 | R$ 1.063,63 | R$ 10,64 |
| 150 km | R$ 1.062,91 | R$ 7,09 | R$ 1.324,51 | R$ 8,83 |
| 200 km | R$ 1.266,60 | R$ 6,33 | R$ 1.585,40 | R$ 7,93 |
| 300 km | R$ 1.673,98 | R$ 5,58 | R$ 2.107,17 | R$ 7,02 |
Se o atacadista oferecer um truck no lugar do toco para os mesmos 150 km, o piso sobe para R$ 1.324,51, R$ 261,60 a mais. Só compensa se a carga não couber no toco.
3. Quanto o toco leva
Pela Resolução CONTRAN nº 882/2021, o toco tem limite de 6 t no eixo dianteiro e 10 t no traseiro de rodagem dupla: 16 t de peso bruto total. Como o limite fica abaixo de 50 t, a fiscalização olha só o peso total, com tolerância de 5% (16,8 t). Com tara de exemplo de 6,5 t (chassi com baú), sobram cerca de 9,5 t de carga útil. Confira sempre o PBT homologado pelo fabricante no CRLV, que pode ser menor que a soma dos eixos.
Na prática, em carga paletizada de atacado, o toco costuma lotar por volume antes de lotar por peso. Isso não muda o piso, que é por viagem.
4. O custo da ida e volta
Premissas de exemplo para o toco, que o leitor deve trocar pelos próprios números: consumo médio de 5,5 km/l, diesel S10 a R$ 7,35/l (média nacional da ANP na semana de 27 de setembro a 3 de outubro de 2026), ARLA 32 equivalente a 5% do diesel a R$ 3,80/l, pneus a R$ 0,12/km, manutenção a R$ 0,20/km e R$ 0,03/km de lavagem e miudezas.
A ida e volta gasta 55 litros de diesel, ou R$ 400,91. Somando os demais variáveis, o custo variável fica em R$ 1,72 por km, ou R$ 516,27 por viagem. Do piso de R$ 1.062,91, restam R$ 546,64 por viagem para pagar os custos fixos.
E os fixos do exemplo somam R$ 10.650,00 por mês: parcela do caminhão de R$ 4.500, seguro de R$ 700, IPVA e licenciamento de R$ 2.400 por ano, retirada do dono de R$ 4.500, rastreador de R$ 150 e R$ 600 de contador, telefone e despesas diversas.
5. Quantas viagens por semana fecham a conta
Dividindo os fixos pela sobra de cada viagem, o ponto de equilíbrio fica em 5.845 km por mês, o equivalente a 4,5 viagens de ida e volta por semana. Abaixo disso, o caminhão roda pagando para trabalhar, mesmo recebendo o piso.
| Viagens por semana | Km por mês | Custo por km | Custo do mês | Receita no piso | Resultado |
|---|---|---|---|---|---|
| 3 | 3.900 | R$ 4,45 | R$ 17.362 | R$ 13.818 | −R$ 3.544 |
| 4 | 5.200 | R$ 3,77 | R$ 19.599 | R$ 18.424 | −R$ 1.175 |
| 5 | 6.500 | R$ 3,36 | R$ 21.836 | R$ 23.030 | +R$ 1.194 |
| 6 | 7.800 | R$ 3,09 | R$ 24.073 | R$ 27.636 | +R$ 3.563 |
O mês foi calculado com 4,33 semanas. Valores negativos significam prejuízo. Repare que o custo por km cai à medida que o caminhão roda mais, porque o mesmo custo fixo se espalha por mais quilômetros. É por isso que o mesmo caminhão pode dar prejuízo num mês fraco e lucro num mês cheio, com o mesmo frete por viagem. Quem só olha o custo do diesel enxerga uma sobra de R$ 662,00 por viagem e acha que qualquer frete no piso é bom negócio.
6. Cabe na jornada?
Com 150 km por trecho e média de 55 km/h em rodovia regional, são cerca de 2 h 44 min de direção na ida e o mesmo na volta, 5 h 27 min no total. A Lei nº 13.103/2015 limita a direção contínua a 5 h 30 min, o que deixa os trechos dentro da regra com folga. Somando cerca de duas horas de carga e descarga e o trânsito urbano na chegada, o ciclo ocupa de oito a nove horas. Duas viagens no mesmo dia exigiriam perto de 11 horas de direção e quatro de doca, 15 horas, o que não cabe junto com o descanso de 11 horas a cada 24 horas que a lei exige. Dá uma viagem por dia, não duas.
Portanto, o teto realista é de 5 ou 6 viagens por semana. Como o equilíbrio está em 4,5, a margem de segurança é estreita: um dia parado por manutenção ou por falta de carga já leva o mês para perto do zero.
7. O que melhora a conta
- Carga de volta. Qualquer frete no retorno, mesmo pequeno, entra quase inteiro como sobra, porque o diesel da volta já seria gasto. Se o motorista conseguir R$ 400 líquidos em cargas de retorno por viagem, a sobra sobe de R$ 546,64 para R$ 946,64 e o equilíbrio cai para 2,6 viagens por semana. É a mudança que mais alivia a conta, porque não depende de convencer o atacadista a pagar mais.
- Preço acima do piso. O piso é chão, não referência de mercado. Com R$ 1.250 por viagem, o equilíbrio cairia para 3,3 viagens por semana.
- Estadia cobrada. Espera longa na doca do cliente come o dia; a Lei nº 11.442/2007 garante estadia após 5 horas de carga ou descarga.
- Cuidado com alto desempenho. Se o contrato enquadrar a operação como de alto desempenho (Tabela C), o piso cai para R$ 693,93. A Resolução 5.867/2020 exige que isso esteja especificado em contrato, com carga e descarga de até três horas sob responsabilidade do contratante. Sem essas condições, vale a Tabela A.
8. O que conferir antes de rodar
- CIOT com o valor da viagem. A operação precisa ser registrada antes da saída, e o valor registrado não pode ficar abaixo de R$ 1.062,91 para os 150 km.
- Eixos certos. Toco é 2 eixos. Se a transportadora mandar um truck, o piso passa a ser o de 3 eixos.
- Tipo de carga da nota. Se a entrega for de produto refrigerado, o coeficiente é outro; com 2 eixos e 150 km, o piso de frigorificada é R$ 1.243,58.
- Pedágio somado. Rodovias regionais concedidas cobram por eixo; o valor deve vir em separado, como vale-pedágio.
- Hora de chegada anotada. Ela é a prova para cobrar estadia quando o cliente demora a descarregar.
- Contrato recorrente com reajuste. Combinado por mês, o frete precisa acompanhar as portarias da ANTT, que mudam os coeficientes ao menos duas vezes por ano.
9. Erros comuns
Usar o piso como se fosse o frete de ida e volta e esquecer que a volta vazia é custo do transportador. Tratar entrega fracionada de vários clientes como lotação: o piso por viagem vale para o contrato que ocupa o veículo inteiro. Esquecer de incluir a retirada do próprio dono nos fixos, o que faz o caminhão parecer lucrativo quando não é.
Perguntas frequentes
Qual o frete mínimo de um toco para 150 km?
Para carga geral na Tabela A, R$ 1.062,91 por viagem, ou R$ 7,09 por km da ida. Pedágio é somado à parte.
Quanto custa rodar os 300 km de ida e volta?
No exemplo, R$ 516,27 em custos variáveis, dos quais R$ 400,91 de diesel.
Quantas viagens por semana o toco precisa fazer?
Com os fixos de R$ 10.650,00 por mês e recebendo o piso, pelo menos 4,5 viagens de ida e volta por semana.
Com 6 viagens por semana, quanto sobra?
Cerca de R$ 3.563 por mês, além da retirada de R$ 4.500 já incluída nos custos.
E se a entrega for a 100 km?
O piso cai para R$ 859,22, mas o custo variável da ida e volta também cai, para R$ 344,18.
Na calculadora de frete mínimo, informe 2 eixos e a distância da sua entrega; depois leve o resultado à calculadora de custo por km para ver quantas viagens o seu caminhão precisa.
Fontes e referências
- Portaria SUROC nº 22/2026 (ANTT) — Coeficientes de 2 e 3 eixos para carga geral, Tabelas A e C, vigentes desde 30/09/2026
- Resolução ANTT nº 5.867/2020 — Piso para carga lotação, definição de operação de alto desempenho (Tabela C) e itens fora do piso
- Resolução CONTRAN nº 882/2021 — Limites de 6 t no eixo dianteiro e 10 t no eixo traseiro de rodagem dupla
- Lei nº 13.103/2015 (Lei do Motorista) — Jornada e tempo máximo de direção contínua, usados para estimar viagens por dia
- Lei nº 11.442/2007 — Prazo de 5 horas para carga e descarga e direito à estadia (art. 11)
- ANP · Síntese semanal de preços, edição 40/2026 — Diesel S10 a R$ 7,35/l, média nacional da semana de 27/09 a 03/10/2026
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