Como calcular o frete de caminhão, passo a passo
Calcular o frete é juntar o piso da ANTT com o custo real do seu caminhão. Neste guia, uma carreta de 5 eixos leva carga geral de Curitiba a Porto Alegre e volta vazia: veja, passo a passo, como sair do custo por km até o preço por viagem e por tonelada.
O caso: um caminhoneiro autônomo com carreta 2S3 (5 eixos) recebeu um pedido para levar 26 t de carga geral paletizada de Curitiba (PR) a Porto Alegre (RS), cerca de 710 km pela BR-376 e BR-101. Ele não tem carga certa para a volta. Quanto deve cobrar?
Resposta curta: o frete sai em sete passos. O piso da ANTT para essa viagem é R$ 5.505,72, mas o custo completo da ida e da volta vazia soma R$ 6.471,95. Com 15% de margem, o preço a pedir é R$ 7.442,74, ou R$ 286,26 por tonelada. O pedágio fica fora: é pago pelo embarcador no vale-pedágio.
Passo 1: junte os dados da viagem
Antes de qualquer conta, anote cinco informações. Sem elas, o preço é chute.
| Dado | No caso | Onde conseguir |
|---|---|---|
| Distância | 710 km | Rota de caminhão da porta da coleta à da entrega (aproximada aqui) |
| Tipo de carga | Carga geral | Nota fiscal e descrição da mercadoria |
| Eixos do conjunto | 5 (cavalo 4x2 + semirreboque de 3 eixos) | Documento do veículo |
| Peso da carga | 26 t | Pedido do embarcador |
| Diesel S10 | R$ 7,34/l | Média nacional da ANP, semana de 11 a 17/10/2026 |
A distância é a que mais pesa. Meça pela rota que o caminhão vai fazer, com desvios de balança e restrição de horário, e não pelo mapa de carro.
Passo 2: calcule o piso mínimo da ANTT
O piso é o mínimo que a lei permite cobrar (Lei 13.703/2018). Ele tem duas partes: o deslocamento, um valor por km multiplicado pela distância, e a carga e descarga, um valor fixo por viagem. Os coeficientes em vigor foram atualizados pela Portaria SUROC nº 22/2026, desde 30/09/2026, com diesel de referência a R$ 7,33 o litro.
| Parte do piso | Valor |
|---|---|
| Deslocamento (710 km) | R$ 4.848,16 |
| Carga e descarga | R$ 657,56 |
| Piso da viagem | R$ 5.505,72 |
| Piso por km | R$ 7,75 |
Frete abaixo desse valor é ilegal: desde 2026, a operação abaixo do piso não gera CIOT e o contratante fica sujeito a multa e indenização. Mas o piso não sabe quanto custa o seu caminhão. Por isso vêm os próximos passos.
Passo 3: descubra o seu custo por km
O custo por km soma duas partes. Os custos fixos existem mesmo com o caminhão parado: parcela, seguro, IPVA, licenciamento, rastreador e a sua retirada. Os custos variáveis só aparecem quando a roda gira: diesel, ARLA 32, pneus e manutenção.
Premissas do caso, por mês: 10.000 km rodados, parcela de R$ 7.500, seguros de R$ 900, rastreador de R$ 250, outros fixos de R$ 500 e retirada de R$ 4.500; IPVA e licenciamento de R$ 5.500 por ano. Variáveis: 2,6 km/l carregado, ARLA 32 a 5% do diesel e R$ 4,00 o litro, pneus a R$ 0,22, manutenção a R$ 0,28 e outros a R$ 0,05 por km.
| Parte do custo | Por km |
|---|---|
| Fixos | R$ 1,41 |
| Variáveis | R$ 3,45 |
| Custo total | R$ 4,86 |
| Custo do mês | R$ 48.608,33 |
O fixo por km depende de quanto você roda. Se o caminhão fizer 7.000 km no mês em vez de 10.000, o mesmo custo fixo se divide por menos quilômetros e cada km fica mais caro. Use a sua média real dos últimos meses.
Passo 4: some o custo da ida
Com o custo por km, a ida de 710 km custa R$ 3.451,19. Só de diesel são 273 litros, ou R$ 2.004,38. Compare com o piso:
| Item | Valor |
|---|---|
| Diesel da ida | R$ 2.004,38 |
| Custo completo da ida | R$ 3.451,19 |
| Piso da ANTT | R$ 5.505,72 |
| Sobra do piso sobre o custo da ida | R$ 2.054,53 |
Passo 5: não esqueça a volta
Aqui está o erro mais caro. Se não houver carga de retorno, a volta vazia tem custo e precisa ser paga pela ida. Vazio, o consumo melhora (premissa de 3,2 km/l), mas os fixos, os pneus e a manutenção continuam correndo.
| Trecho | Custo |
|---|---|
| Ida carregado | R$ 3.451,19 |
| Volta vazia (fixos + 222 l de diesel + pneus e manutenção) | R$ 3.020,75 |
| Custo da viagem redonda | R$ 6.471,95 |
Em alguns casos previstos pela ANTT, a própria tabela já obriga a cobrar o retorno vazio; nos demais, ele entra na negociação. Se você conseguir uma carga de volta, mesmo barata, o custo da ida deixa de carregar a volta inteira.
Passo 6: ponha a margem e compare com o piso
Custo não é preço. Sobre o custo, entra a margem para cobrir imprevistos, juros e o lucro do negócio. Neste caso, a redação usou 15%. A regra final é simples: o preço é o maior valor entre o piso da ANTT e o seu custo com margem.
| Cenário | Custo com 15% de margem | Piso ANTT | Preço a pedir |
|---|---|---|---|
| Volta vazia | R$ 7.442,74 | R$ 5.505,72 | R$ 7.442,74 |
| Com carga de volta | R$ 3.968,87 | R$ 5.505,72 | R$ 5.505,72 |
Impostos e retenções também entram na conta antes de fechar: o ICMS do frete interestadual e, para o autônomo, as retenções de INSS, SEST/SENAT e Imposto de Renda. As regras mudam conforme o tipo de contratação; confirme com o seu contador.
Passo 7: converta para o jeito que o cliente pergunta
Muitos embarcadores pedem preço por tonelada. Basta dividir: R$ 7.442,74 ÷ 26 t = R$ 286,26 por tonelada. Se a carga real for menor que a combinada, o preço por viagem não cai, porque o caminhão roda igual. Deixe isso claro na proposta.
Confira também o tempo. Saindo às 5h, com média de 65 km/h e as paradas da Lei 13.103/2015, são 10 h 55 min ao volante e chegada prevista às 03:55. Se a descarga atrasar mais de 5 horas, cabe estadia.
Quando vale a pena recusar
Nem todo frete acima do piso compensa. Se a proposta do embarcador ficar entre o piso e o seu custo da viagem redonda, aceitar significa pagar para trabalhar, a menos que exista carga de volta. No caso, qualquer valor abaixo de R$ 6.471,95 com volta vazia não cobre o custo, mesmo estando acima do piso de R$ 5.505,72.
Antes de dizer não, faça três perguntas: há carga de retorno na região de Porto Alegre? O pagamento sai em quanto tempo (a lei limita o prazo a 30 dias úteis)? A carga e a descarga têm horário marcado? Uma volta carregada ou um pagamento rápido podem mudar a conta. Um frete que prende o caminhão dois dias em fila, não.
Guarde a planilha de cada viagem. Depois de alguns meses, você terá o seu custo real por km e saberá de cabeça qual é o menor valor que aceita em cada rota.
Checklist do frete
- Distância medida pela rota do caminhão.
- Tipo de carga e número de eixos conferidos.
- Piso da ANTT calculado com a tabela vigente.
- Custo por km atualizado com o diesel da semana.
- Volta vazia incluída, se não houver carga de retorno.
- Margem aplicada e preço nunca abaixo do piso.
- Vale-pedágio separado do frete, pago pelo embarcador.
- Horário de carga e descarga combinado por escrito.
Erros comuns
- Cobrar só o piso. O piso é o mínimo legal; ele pode não pagar o seu caminhão.
- Usar só o diesel como custo. Diesel é a maior parte, mas fixos, pneus e manutenção fazem a diferença no fim do mês.
- Esquecer a volta. Volta vazia não paga pode comer a margem inteira da ida.
- Somar o pedágio ao frete. Pela Lei 10.209/2001, o vale-pedágio é à parte e não pode ser descontado do frete.
- Usar custo por km de outro caminhão. Cada veículo tem parcela, consumo e quilometragem diferentes.
Perguntas frequentes
Como calcular o frete de caminhão por km?
Divida o custo total do mês (fixos mais variáveis) pelos quilômetros rodados no mês. No caso, dá R$ 4,86 por km. Depois, multiplique pela distância, some a volta se for vazia, aplique a margem e compare com o piso da ANTT.
O frete mínimo da ANTT já inclui a volta?
Na regra geral, não: o piso da tabela A é calculado para a ida. A ANTT prevê casos em que o retorno vazio é obrigatório; fora deles, a volta precisa ser negociada no preço.
Qual margem de lucro usar no frete?
Não existe percentual oficial. A margem depende do risco da rota, do prazo de pagamento e da concorrência. O importante é que ela fique em cima do custo completo, e não só do diesel.
O pedágio entra no preço do frete?
Não. O embarcador paga o pedágio antecipado pelo vale-pedágio obrigatório, à parte do frete. Use a calculadora de pedágios só para conferir se o vale cobre todas as praças da rota.
Posso cobrar menos que o piso se o cliente pedir?
Não. Frete abaixo do piso da ANTT não gera CIOT e sujeita o contratante a multa e indenização ao transportador. O piso vale para qualquer contratação de transporte rodoviário remunerado.
Como cobrar por tonelada?
Calcule o preço da viagem e divida pelo peso combinado. Neste caso, R$ 286,26 por tonelada para 26 t. Se o embarcador mandar menos carga, o preço da viagem deve se manter.
Leia também: O frete compensa? Piso da ANTT contra o custo real
Leia também: Frete por tonelada: como calcular e quanto cobrar
Fontes e referências
- Lei nº 13.703/2018 – Política Nacional de Pisos Mínimos do Transporte Rodoviário de Cargas (texto compilado) — Piso mínimo obrigatório; indenização e sanções por frete abaixo do piso.
- ANTT atualiza coeficientes do Piso Mínimo do Frete e divulga novo preço de referência do diesel (Portaria SUROC nº 22/2026) — Coeficientes em vigor desde 30/09/2026, diesel de referência a R$ 7,33/l.
- ANP – Síntese semanal do comportamento dos preços dos combustíveis nº 42/2026 — Semana de 11 a 17/10/2026: diesel S10 a R$ 7,34/l (média nacional); Curitiba R$ 7,29 e Porto Alegre R$ 7,16.
- Lei nº 15.485, de 5 de agosto de 2026 — CIOT prévio para toda operação e prazo de pagamento do frete de até 30 dias úteis.
- Lei nº 10.209/2001 (Vale-Pedágio obrigatório) — Pedágio pago pelo embarcador, à parte do frete.
- Lei nº 13.103/2015 (Lei do Motorista) — Tempo de direção, descansos e estadia após 5 horas de espera.
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