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Guia prático

Frete por tonelada: como calcular e quanto cobrar

No granel, quase todo embarcador pergunta o preço por tonelada. A conta parece simples, mas quem divide errado acaba abaixo do piso da ANTT ou pagando a volta vazia do próprio bolso.

Colheitadeira descarregando grãos numa carreta graneleira em campo colhido
No granel, o preço costuma ser combinado por tonelada, mas o caminhão roda e gasta por viagem. Foto: Roger Starnes Sr / Unsplash

O caso: um cerealista pede a um caminhoneiro autônomo o preço "por tonelada" para levar soja a granel por 400 km, de uma fazenda até um armazém. O caminhoneiro tem uma carreta graneleira de 6 eixos (3S3) e volta vazio. Quanto cobrar por tonelada sem ficar abaixo do piso da ANTT nem do próprio custo?

Resposta curta: divida o preço da viagem pela carga útil, nunca o contrário. Pelo piso da ANTT para granel sólido, a viagem de 400 km em 6 eixos vale no mínimo R$ 3.705,65; com 32,0 t a bordo, isso dá R$ 115,80 por tonelada. Mas, com a volta vazia e as premissas deste guia, o custo da viagem redonda chega a R$ 4.035,65, ou R$ 126,11 por tonelada. Com 12% de margem, o preço fica em R$ 141,25 por tonelada, e o contrato deve garantir o valor da viagem se a carga vier menor.

A fórmula do frete por tonelada

Frete por tonelada é só outra forma de escrever o preço da viagem. O caminhão roda os mesmos quilômetros, gasta o mesmo diesel e paga a mesma parcela, esteja com 32 t ou com 26 t. Por isso a conta certa tem três passos:

  1. Calcule o preço da viagem, comparando o piso mínimo da ANTT com o seu custo real (ida e volta, se a volta for vazia).
  2. Descubra a carga útil do conjunto: peso bruto total permitido menos a tara.
  3. Divida: preço da viagem ÷ toneladas = preço por tonelada.

O piso da ANTT é definido por quilômetro rodado e por eixo carregado, conforme o tipo de carga, pela Lei nº 13.703/2018 e pela Resolução ANTT nº 5.867/2020, com os coeficientes atualizados pela Portaria SUROC nº 22/2026. Ele não tem versão "por tonelada". Um preço por tonelada que, multiplicado pela carga real, fique abaixo do piso da viagem é frete abaixo do piso.

Quantas toneladas cabem em cada caminhão

A carga útil depende do peso máximo por eixo, fixado pela Resolução Contran nº 882/2021: 6 t no eixo dianteiro, 10 t no eixo isolado de rodagem dupla, 17 t em dois eixos em tandem e 25,5 t em três eixos em tandem. O rodotrem de 9 eixos só chega a 74 t com Autorização Especial de Trânsito (AET). Do peso bruto, desconte a tara do seu conjunto vazio.

Conjunto Eixos Peso bruto máximo Tara (exemplo) Carga útil Piso ANTT, 400 km Piso por tonelada
Carreta 2S3 5 41,5 t 14,5 t 27,0 t R$ 3.406,75 R$ 126,18
Carreta 3S3 6 48,5 t 16,5 t 32,0 t R$ 3.705,65 R$ 115,80
Bitrem 3S2S2 7 57,0 t 20 t 37,0 t R$ 4.112,98 R$ 111,16
Rodotrem (com AET) 9 74,0 t 25 t 49,0 t R$ 4.681,63 R$ 95,54

As taras são exemplos de graneleiros; a sua está no documento do veículo e no ticket da balança vazio. Se o fabricante indicar limite menor que o da resolução, vale o do fabricante.

Carreta 2S3R$ 126,18Carreta 3S3R$ 115,80Bitrem 7 eixosR$ 111,16Rodotrem 9 eixosR$ 95,54
Figura 1. Piso mínimo da ANTT por tonelada para granel sólido em 400 km, com a carga útil de exemplo de cada conjunto. Quanto mais carga útil por eixo, menor o piso por tonelada.
Caminhão basculante carregado rodando em estrada de terra
Figura 2. Areia, brita e calcário também são cobrados por tonelada; a conta da carga útil vale do mesmo jeito. Foto: Lars Portjanow / Unsplash

O piso por tonelada não é o seu preço

O piso cobre o deslocamento da ida e a carga e descarga. Se o caminhão volta vazio, quem paga os 400 km de volta é você, e isso tem de estar no preço por tonelada.

Para montar o custo, use o seu custo por km. As premissas abaixo são da redação, para uma carreta 3S3 de autônomo que roda 10 mil km por mês: parcela de R$ 9.000, seguro de R$ 1.500 por mês, IPVA e licenciamento de R$ 6.000 por ano, rastreador de R$ 250, outros fixos de R$ 500, consumo de 2,3 km/l, diesel S10 a R$ 7,32 (média nacional da ANP de 18 a 24/10/2026), ARLA 32 a 5% do diesel a R$ 4,00 o litro, pneus a R$ 0,25/km, manutenção a R$ 0,30/km e outros variáveis a R$ 0,05/km. Sem salário de motorista contratado, porque o dono dirige; o pró-labore sai da margem.

Item Valor
Custo fixo por km R$ 1,18
Custo variável por km R$ 3,87
Custo total por km R$ 5,04
Viagem redonda (800 km), custo total R$ 4.035,65
Só o diesel da viagem redonda (348 litros) R$ 2.546,09
Custo por tonelada (32,0 t) R$ 126,11
Com 12% de margem R$ 141,25
Piso da ANTT por tonelada (só a ida) R$ 115,80
Preço por tonelada a propor (o maior dos dois) R$ 141,25

A regra é simples: o preço proposto é o maior entre o piso por tonelada e o seu custo por tonelada com margem. Se houver carga de retorno, refaça a conta só com a ida, e o preço pode cair até o piso.

E se houver carga de retorno

A volta carregada muda tudo. Se o caminhoneiro do caso conseguir um frete de retorno que pague pelo menos o custo da volta, o preço da ida pode considerar só os 400 km de ida. Com as mesmas premissas, o custo por tonelada da ida cai para R$ 63,06; com 12% de margem e respeitando o piso, o preço por tonelada fica em R$ 115,80, contra R$ 141,25 com a volta vazia.

Só faça essa conta com o retorno garantido, com contratante, data e valor. Prometer preço de ida "porque sempre aparece carga na volta" é a forma mais comum de trabalhar no prejuízo na safra, quando muitos caminhões disputam a mesma carga de retorno.

Vale lembrar que a mesma conta muda com o conjunto. Um bitrem tem custo por km maior que o da carreta, por causa do implemento, dos pneus e do consumo, mas leva 37,0 t. Mesmo supondo um custo por km 12% maior que o da carreta 3S3, o custo da viagem redonda por tonelada seria de cerca de R$ 122,16, contra R$ 126,11 da carreta. É por isso que o embarcador de granel prefere conjuntos maiores e que o preço "de mercado" por tonelada costuma estar abaixo do que a carreta precisa.

Quando a carga vem menor que a combinada

É o ponto que mais dá prejuízo no frete por tonelada. A colheita atrasou, o armazém só liberou parte do lote ou a soja veio mais leve, e a carreta sai com 26 t em vez de 32,0 t. Pagando por tonelada, a viagem rende R$ 3.672,44, mas o piso da viagem continua em R$ 3.705,65, porque ele é calculado por km e por eixo, e não por peso. A diferença (R$ 33,21, no caso) é frete abaixo do piso.

Para evitar isso, ponha no contrato um valor mínimo por viagem (o piso, ou o seu custo, se for maior) e o preço por tonelada só para o que passar disso. Outra saída é cotar por viagem e informar o valor por tonelada só como referência.

01.0002.0003.0004.0005.0000612182430Toneladas carregadasR$ por viagemReceita cobrando por toneladaCusto da viagem redondaPiso ANTT da viagem
Figura 3. Receita da carreta 3S3 cobrando por tonelada, comparada com o piso da ANTT e com o custo da viagem redonda (premissas do guia). Abaixo do cruzamento, a viagem não paga a conta.

Pedágio, estadia e descarga ficam fora da tonelada

Três despesas não devem ser diluídas no preço por tonelada:

Checklist do frete por tonelada

Erros comuns

Perguntas frequentes

Como calcular o frete por tonelada?

Calcule o preço da viagem (o maior entre o piso da ANTT e o seu custo com margem) e divida pelas toneladas carregadas. No caso deste guia, R$ 4.519,93 ÷ 32,0 t = R$ 141,25 por tonelada.

A ANTT tem tabela de frete por tonelada?

Não. O piso mínimo é calculado por quilômetro e por eixo, conforme o tipo de carga. O valor por tonelada é uma conversão que você faz dividindo o piso da viagem pela carga.

Por que o bitrem cobra menos por tonelada?

Porque leva mais carga por eixo. O piso cresce com os eixos, mas a carga útil cresce mais. No exemplo, o piso por tonelada cai de R$ 115,80 na carreta 3S3 para R$ 111,16 no bitrem.

Se a carga vier menor, posso receber menos?

Não abaixo do piso da viagem. O piso não muda com o peso. Por isso, combine um valor mínimo por viagem no contrato.

O preço por tonelada inclui o pedágio?

Não deveria. O pedágio é antecipado pelo contratante, por fora, pelo vale-pedágio obrigatório.

Qual diesel usar na conta?

O que você paga de fato. Na falta dele, use a média do levantamento semanal da ANP mais recente e refaça a conta quando o preço mudar.

Leia também: Como calcular o frete de caminhão, passo a passo

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Fontes e referências

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