Frete por tonelada: como calcular e quanto cobrar
No granel, quase todo embarcador pergunta o preço por tonelada. A conta parece simples, mas quem divide errado acaba abaixo do piso da ANTT ou pagando a volta vazia do próprio bolso.
O caso: um cerealista pede a um caminhoneiro autônomo o preço "por tonelada" para levar soja a granel por 400 km, de uma fazenda até um armazém. O caminhoneiro tem uma carreta graneleira de 6 eixos (3S3) e volta vazio. Quanto cobrar por tonelada sem ficar abaixo do piso da ANTT nem do próprio custo?
Resposta curta: divida o preço da viagem pela carga útil, nunca o contrário. Pelo piso da ANTT para granel sólido, a viagem de 400 km em 6 eixos vale no mínimo R$ 3.705,65; com 32,0 t a bordo, isso dá R$ 115,80 por tonelada. Mas, com a volta vazia e as premissas deste guia, o custo da viagem redonda chega a R$ 4.035,65, ou R$ 126,11 por tonelada. Com 12% de margem, o preço fica em R$ 141,25 por tonelada, e o contrato deve garantir o valor da viagem se a carga vier menor.
A fórmula do frete por tonelada
Frete por tonelada é só outra forma de escrever o preço da viagem. O caminhão roda os mesmos quilômetros, gasta o mesmo diesel e paga a mesma parcela, esteja com 32 t ou com 26 t. Por isso a conta certa tem três passos:
- Calcule o preço da viagem, comparando o piso mínimo da ANTT com o seu custo real (ida e volta, se a volta for vazia).
- Descubra a carga útil do conjunto: peso bruto total permitido menos a tara.
- Divida: preço da viagem ÷ toneladas = preço por tonelada.
O piso da ANTT é definido por quilômetro rodado e por eixo carregado, conforme o tipo de carga, pela Lei nº 13.703/2018 e pela Resolução ANTT nº 5.867/2020, com os coeficientes atualizados pela Portaria SUROC nº 22/2026. Ele não tem versão "por tonelada". Um preço por tonelada que, multiplicado pela carga real, fique abaixo do piso da viagem é frete abaixo do piso.
Quantas toneladas cabem em cada caminhão
A carga útil depende do peso máximo por eixo, fixado pela Resolução Contran nº 882/2021: 6 t no eixo dianteiro, 10 t no eixo isolado de rodagem dupla, 17 t em dois eixos em tandem e 25,5 t em três eixos em tandem. O rodotrem de 9 eixos só chega a 74 t com Autorização Especial de Trânsito (AET). Do peso bruto, desconte a tara do seu conjunto vazio.
| Conjunto | Eixos | Peso bruto máximo | Tara (exemplo) | Carga útil | Piso ANTT, 400 km | Piso por tonelada |
|---|---|---|---|---|---|---|
| Carreta 2S3 | 5 | 41,5 t | 14,5 t | 27,0 t | R$ 3.406,75 | R$ 126,18 |
| Carreta 3S3 | 6 | 48,5 t | 16,5 t | 32,0 t | R$ 3.705,65 | R$ 115,80 |
| Bitrem 3S2S2 | 7 | 57,0 t | 20 t | 37,0 t | R$ 4.112,98 | R$ 111,16 |
| Rodotrem (com AET) | 9 | 74,0 t | 25 t | 49,0 t | R$ 4.681,63 | R$ 95,54 |
As taras são exemplos de graneleiros; a sua está no documento do veículo e no ticket da balança vazio. Se o fabricante indicar limite menor que o da resolução, vale o do fabricante.
O piso por tonelada não é o seu preço
O piso cobre o deslocamento da ida e a carga e descarga. Se o caminhão volta vazio, quem paga os 400 km de volta é você, e isso tem de estar no preço por tonelada.
Para montar o custo, use o seu custo por km. As premissas abaixo são da redação, para uma carreta 3S3 de autônomo que roda 10 mil km por mês: parcela de R$ 9.000, seguro de R$ 1.500 por mês, IPVA e licenciamento de R$ 6.000 por ano, rastreador de R$ 250, outros fixos de R$ 500, consumo de 2,3 km/l, diesel S10 a R$ 7,32 (média nacional da ANP de 18 a 24/10/2026), ARLA 32 a 5% do diesel a R$ 4,00 o litro, pneus a R$ 0,25/km, manutenção a R$ 0,30/km e outros variáveis a R$ 0,05/km. Sem salário de motorista contratado, porque o dono dirige; o pró-labore sai da margem.
| Item | Valor |
|---|---|
| Custo fixo por km | R$ 1,18 |
| Custo variável por km | R$ 3,87 |
| Custo total por km | R$ 5,04 |
| Viagem redonda (800 km), custo total | R$ 4.035,65 |
| Só o diesel da viagem redonda (348 litros) | R$ 2.546,09 |
| Custo por tonelada (32,0 t) | R$ 126,11 |
| Com 12% de margem | R$ 141,25 |
| Piso da ANTT por tonelada (só a ida) | R$ 115,80 |
| Preço por tonelada a propor (o maior dos dois) | R$ 141,25 |
A regra é simples: o preço proposto é o maior entre o piso por tonelada e o seu custo por tonelada com margem. Se houver carga de retorno, refaça a conta só com a ida, e o preço pode cair até o piso.
E se houver carga de retorno
A volta carregada muda tudo. Se o caminhoneiro do caso conseguir um frete de retorno que pague pelo menos o custo da volta, o preço da ida pode considerar só os 400 km de ida. Com as mesmas premissas, o custo por tonelada da ida cai para R$ 63,06; com 12% de margem e respeitando o piso, o preço por tonelada fica em R$ 115,80, contra R$ 141,25 com a volta vazia.
Só faça essa conta com o retorno garantido, com contratante, data e valor. Prometer preço de ida "porque sempre aparece carga na volta" é a forma mais comum de trabalhar no prejuízo na safra, quando muitos caminhões disputam a mesma carga de retorno.
Vale lembrar que a mesma conta muda com o conjunto. Um bitrem tem custo por km maior que o da carreta, por causa do implemento, dos pneus e do consumo, mas leva 37,0 t. Mesmo supondo um custo por km 12% maior que o da carreta 3S3, o custo da viagem redonda por tonelada seria de cerca de R$ 122,16, contra R$ 126,11 da carreta. É por isso que o embarcador de granel prefere conjuntos maiores e que o preço "de mercado" por tonelada costuma estar abaixo do que a carreta precisa.
Quando a carga vem menor que a combinada
É o ponto que mais dá prejuízo no frete por tonelada. A colheita atrasou, o armazém só liberou parte do lote ou a soja veio mais leve, e a carreta sai com 26 t em vez de 32,0 t. Pagando por tonelada, a viagem rende R$ 3.672,44, mas o piso da viagem continua em R$ 3.705,65, porque ele é calculado por km e por eixo, e não por peso. A diferença (R$ 33,21, no caso) é frete abaixo do piso.
Para evitar isso, ponha no contrato um valor mínimo por viagem (o piso, ou o seu custo, se for maior) e o preço por tonelada só para o que passar disso. Outra saída é cotar por viagem e informar o valor por tonelada só como referência.
Pedágio, estadia e descarga ficam fora da tonelada
Três despesas não devem ser diluídas no preço por tonelada:
- Pedágio: pela Lei nº 10.209/2001, o contratante antecipa o vale-pedágio, à parte do frete.
- Estadia: espera acima do prazo de carga ou descarga é cobrada por hora, à parte.
- Diferença de peso na balança: combine qual ticket vale (origem ou destino) e a tolerância para quebra de peso antes de carregar.
Checklist do frete por tonelada
- Confirme o tipo de carga na tabela da ANTT (granel sólido, carga geral, frigorificada etc.).
- Use a carga útil real do seu conjunto, não a capacidade de catálogo.
- Calcule o piso da viagem e divida pela carga útil.
- Calcule o custo da viagem redonda se a volta for vazia.
- Proponha o maior dos dois valores por tonelada.
- Escreva no contrato o valor mínimo por viagem.
- Peça o vale-pedágio separado.
Erros comuns
- Aceitar o "preço de mercado" por tonelada sem multiplicar pela carga real e comparar com o piso da viagem.
- Calcular o preço por tonelada com o peso bruto, e não com a carga útil.
- Esquecer a volta vazia: o piso da ida não paga os 400 km de retorno.
- Contar com excesso de peso para "baixar" o preço por tonelada. O excesso dá multa e retenção na balança.
Perguntas frequentes
Como calcular o frete por tonelada?
Calcule o preço da viagem (o maior entre o piso da ANTT e o seu custo com margem) e divida pelas toneladas carregadas. No caso deste guia, R$ 4.519,93 ÷ 32,0 t = R$ 141,25 por tonelada.
A ANTT tem tabela de frete por tonelada?
Não. O piso mínimo é calculado por quilômetro e por eixo, conforme o tipo de carga. O valor por tonelada é uma conversão que você faz dividindo o piso da viagem pela carga.
Por que o bitrem cobra menos por tonelada?
Porque leva mais carga por eixo. O piso cresce com os eixos, mas a carga útil cresce mais. No exemplo, o piso por tonelada cai de R$ 115,80 na carreta 3S3 para R$ 111,16 no bitrem.
Se a carga vier menor, posso receber menos?
Não abaixo do piso da viagem. O piso não muda com o peso. Por isso, combine um valor mínimo por viagem no contrato.
O preço por tonelada inclui o pedágio?
Não deveria. O pedágio é antecipado pelo contratante, por fora, pelo vale-pedágio obrigatório.
Qual diesel usar na conta?
O que você paga de fato. Na falta dele, use a média do levantamento semanal da ANP mais recente e refaça a conta quando o preço mudar.
Leia também: Como calcular o frete de caminhão, passo a passo
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Fontes e referências
- Lei nº 13.703/2018 – Política Nacional de Pisos Mínimos do Transporte Rodoviário de Cargas — Piso definido por km rodado e por eixo carregado, conforme o tipo de carga.
- Resolução ANTT nº 5.867, de 14 de janeiro de 2020 — Metodologia e tabelas do piso mínimo por tipo de carga e número de eixos.
- ANTT atualiza coeficientes do Piso Mínimo do Frete (Portaria SUROC nº 22/2026) — Coeficientes em vigor usados pela função frete_minimo.
- Resolução Contran nº 882/2021 – limites de pesos e dimensões — Limites por eixo (6 t, 10 t, 17 t, 25,5 t) e teto de 74 t com AET.
- Lei nº 10.209/2001 (Vale-Pedágio obrigatório) — Pedágio antecipado pelo contratante, à parte do frete.
- ANP – Síntese semanal dos preços dos combustíveis nº 43/2026 — Diesel S10 a R$ 7,32/l, média nacional de 18 a 24/10/2026.
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