Frete de grãos Rondonópolis–Santos: bitrem e rodotrem
Na safra, a pergunta do embarcador é quanto custa levar uma tonelada de soja do Mato Grosso ao porto. Calculamos o piso mínimo do bitrem e do rodotrem até Santos, convertemos para R$ por tonelada e conferimos se a carga cabe na balança.
O caso: uma trading contrata o transporte de soja em grão de Rondonópolis (MT) até um terminal no Porto de Santos (SP), a cerca de 1.400 km por rodovia (distância aproximada; varia com o trajeto e o terminal). Há duas composições na disputa: bitrem graneleiro de 7 eixos e rodotrem de 9 eixos. Lotação, composição completa (Tabela A), sem retorno vazio.
Resposta curta: o piso do bitrem é R$ 12.344,58 por viagem; com 37,5 t de carga útil, dá R$ 329,19 por tonelada. O rodotrem tem piso de R$ 14.113,43, mas leva 48,0 t: R$ 294,03 por tonelada, R$ 35,16 a menos. Pedágio à parte.
1. Por que Rondonópolis e por que por tonelada
Rondonópolis é um dos principais pontos de concentração de grãos do sul de Mato Grosso, com armazéns, indústrias de esmagamento e terminal ferroviário. Na safra, parte da produção segue de trem até Santos e parte vai direto pela rodovia, sobretudo quando a ferrovia está com a capacidade tomada ou quando o comprador quer entrega em terminal específico.
O mercado de grãos negocia frete em reais por tonelada. A tabela da ANTT, porém, calcula o piso por viagem, conforme o tipo de carga e o número de eixos, sem olhar o peso. Para saber se uma oferta em R$/t respeita o piso, é preciso dividir o piso da viagem pelas toneladas que o caminhão efetivamente leva. É aí que entra a balança.
A Resolução ANTT nº 5.867/2020 define carga sólida a granel como a carga sólida embarcada sem acondicionamento. Soja, milho, farelo e adubo a granel caem nessa linha da tabela.
2. O piso de cada composição
Os coeficientes são os da Portaria SUROC nº 22/2026, vigentes desde 30 de setembro de 2026.
| Composição | CCD (R$/km) | CC (R$) | Piso da viagem | Piso por km |
|---|---|---|---|---|
| Bitrem 7 eixos | 8,2316 | 820,34 | R$ 12.344,58 | R$ 8,82 |
| Rodotrem 9 eixos | 9,4318 | 908,91 | R$ 14.113,43 | R$ 10,08 |
O rodotrem tem piso por viagem 14,3% maior. A pergunta que importa é quanto ele leva a mais.
3. Conferindo o PBTC: quanto cada um pode levar
A Resolução CONTRAN nº 882/2021 fixa os limites por grupo de eixos. Na conta do bitrem de 7 eixos (cavalo 6x2 ou 6x4 com dois semirreboques de dois eixos), o eixo dianteiro direcional tem limite de 6 t e cada tandem duplo, 17 t: 57,0 t de PBTC. O rodotrem de 9 eixos considerado aqui (cavalo, semirreboque de dois eixos, dolly e segundo semirreboque de dois eixos) soma quatro tandens duplos: 74,0 t.
Para chegar à carga útil, usamos taras de exemplo: 19,5 t para o bitrem graneleiro e 26,0 t para o rodotrem, valores plausíveis para conjuntos com cavalo traçado. Cada transportador deve trocar pela tara do próprio CRLV ou pela pesagem vazia.
| Item | Bitrem 7 eixos | Rodotrem 9 eixos |
|---|---|---|
| Limite de PBTC | 57,0 t | 74,0 t |
| PBTC com tolerância de 5% | 59,85 t | 77,70 t |
| Tara (premissa) | 19,5 t | 26,0 t |
| Carga útil no limite legal | 37,5 t | 48,0 t |
| Piso da viagem | R$ 12.344,58 | R$ 14.113,43 |
| Piso por tonelada | R$ 329,19 | R$ 294,03 |
| Piso por tonelada·km | R$ 0,2351 | R$ 0,2100 |
A tolerância de 5% no PBTC, prevista na Lei nº 7.408/1985 com a redação da Lei nº 14.229/2021, existe para cobrir imprecisão de carregamento e de balança. Ela não é carga útil extra: quem planeja carregar dentro da tolerância de propósito fica sem margem para o erro e corre risco de autuação.
4. A licença que o rodotrem exige
O ganho do rodotrem tem uma condição. Pela Resolução CONTRAN nº 882/2021, combinações com mais de duas unidades e PBTC acima de 57 t, ou com mais de 19,80 m, só circulam com Autorização Especial de Trânsito (AET). A mesma norma limita o PBTC a 74 t, exige comprimento entre 25 m e 30 m acima de 57 t, cavalo 6x4 e, como regra, circulação do amanhecer ao pôr do sol, com exceções para vias de pista dupla. O órgão rodoviário pode dispensar a AET em trechos que ele próprio publicar.
Na prática, isso tem custo: emissão e renovação da AET, cavalo traçado mais caro e restrição de horário, que pode acrescentar um pernoite numa viagem de 1.400 km. O bitrem de 7 eixos, com 57 t e dentro de 19,80 m, roda sem essa licença.
5. Uma pesagem que dá errado
O erro mais comum na safra é carregar "no olho" e descobrir na balança. Suponha um bitrem que saiu do armazém com carga demais, concentrada no primeiro semirreboque: dianteiro com 6,1 t e tandens com 17,8 t, 19,4 t e 18,0 t.
O PBTC medido é de 61,3 t, acima do limite com tolerância (59,85 t). E o tandem mais carregado, com 19,4 t, passa dos 19,125 t que os 12,5% de tolerância por eixo permitem. São duas irregularidades na mesma pesagem. Como o limite de PBTC do bitrem passa de 50 t, o excesso por eixo é fiscalizado mesmo quando o peso total está em ordem.
Por isso, a carga útil máxima de 37,5 t só vale com a soja bem distribuída entre as duas caixas.
6. Diesel, piso e distância
Para medir o peso do combustível, duas premissas de exemplo: bitrem carregado a 2,2 km/l e rodotrem a 1,9 km/l, com diesel S10 a R$ 7,35/l, média nacional da ANP na semana de 27 de setembro a 3 de outubro de 2026. Em Cuiabá, a mesma pesquisa apontou R$ 7,74/l, e quem abastece em Mato Grosso deve ajustar.
O bitrem queima cerca de 636 litros na ida (R$ 4.677,27, ou R$ 124,73 por tonelada). O rodotrem, 737 litros (R$ 5.415,79, R$ 112,83 por tonelada). Com mais carga por litro, o rodotrem também ganha no diesel por tonelada.
A vantagem por tonelada se mantém em outras distâncias, como mostra a tabela.
| Distância | Bitrem, piso R$/t | Rodotrem, piso R$/t | Diferença por t |
|---|---|---|---|
| 600 km | R$ 153,58 | R$ 136,83 | R$ 16,75 |
| 1.000 km | R$ 241,39 | R$ 215,43 | R$ 25,95 |
| 1.400 km | R$ 329,19 | R$ 294,03 | R$ 35,16 |
| 1.800 km | R$ 416,99 | R$ 372,63 | R$ 44,36 |
| 2.200 km | R$ 504,80 | R$ 451,23 | R$ 53,57 |
7. A fila do porto também é custo
Na safra, chegar a Santos não significa descarregar. Filas em pátios reguladores e terminais podem segurar o conjunto por horas. A Lei nº 11.442/2007 fixa em 5 horas o prazo máximo para carga e descarga; passado esse prazo, o transportador tem direito a um valor por tonelada e por hora de espera, calculado sobre a capacidade total do veículo. O texto da lei traz R$ 1,38 por tonelada/hora, valor que deve ser corrigido todo ano pelo INPC, de modo que o número atualizado é maior.
Mesmo com o valor histórico da lei, a conta é relevante: um bitrem com 37,5 t de capacidade que espera 12 horas para descarregar tem 7 horas além do prazo, ou pelo menos R$ 362,25 de estadia. No rodotrem, com 48,0 t, a mesma espera vale pelo menos R$ 463,68. A estadia não entra no piso e deve ser cobrada à parte, com o horário de chegada comprovado.
8. Checklist da cotação em R$/t
- Converta antes de aceitar. Multiplique o R$/t oferecido pela carga útil real e compare com o piso da viagem. Uma oferta de R$ 330/t no bitrem dá R$ 12.375,00, acima do piso de R$ 12.344,58.
- Use o peso de chegada com cuidado. Se o frete é pago sobre o peso descarregado e houver quebra, o total pode cair abaixo do piso. O piso é por viagem, não por tonelada entregue.
- Eixos reais no CIOT. Rodotrem é 9 eixos na tabela, ainda que rode com eixos suspensos na volta.
- AET em dia e no veículo. Sem ela, o rodotrem acima de 57 t está irregular, independentemente do frete.
- Pedágio separado. Ele é somado ao piso e não entra no R$/t negociado.
- Volta. Grão não tem retorno vazio obrigatório. Muitos conjuntos sobem com adubo ou calcário; cada perna é uma operação com piso próprio.
Perguntas frequentes
Qual o frete mínimo por tonelada de Rondonópolis a Santos em bitrem?
Com 37,5 t de carga útil e cerca de 1.400 km, R$ 329,19 por tonelada, a partir de um piso de R$ 12.344,58 por viagem.
E no rodotrem de 9 eixos?
R$ 294,03 por tonelada, com 48,0 t de carga útil e piso de R$ 14.113,43 por viagem.
Uma oferta de R$ 300 por tonelada respeita o piso?
No rodotrem, dá R$ 14.400,00, acima do piso. No bitrem, R$ 11.250,00, abaixo do piso de R$ 12.344,58.
Posso carregar o bitrem até 59,85 t usando a tolerância?
Não como rotina. A tolerância de 5% leva o limite a 59,85 t, mas o peso legal é 57,0 t; a margem serve para cobrir erros de carregamento e de balança.
O piso muda se a carga for milho ou farelo em vez de soja?
O piso por viagem não muda: todos são granel sólido, e o bitrem continua em R$ 12.344,58. O que pode mudar é o R$/t. Produtos menos densos às vezes enchem a caixa antes de atingir o peso; se o bitrem levar só 34 t, o piso por tonelada sobe para R$ 363,08.
Quanto o rodotrem economiza numa safra de 10 mil toneladas?
Pelo piso, a diferença de R$ 35,16 por tonelada soma R$ 351.590,08, antes dos custos da AET e da restrição de horário.
Na calculadora de frete por tonelada, informe o peso real embarcado, a distância e o número de eixos para conferir se o valor negociado cobre o piso.
Faça a conta: Frete por tonelada →
Fontes e referências
- Portaria SUROC nº 22/2026 (ANTT) — Coeficientes de granel sólido para 7 e 9 eixos vigentes desde 30/09/2026
- Resolução ANTT nº 5.867/2020 — Definição de carga sólida a granel e fórmula do piso por viagem
- Resolução CONTRAN nº 882/2021 — Limites por eixo (tandem duplo de 17 t), exigência de AET para CVC acima de 57 t e teto de 74 t
- Lei nº 7.408/1985 (redação da Lei nº 14.229/2021) — Tolerâncias de 5% no PBTC e de 12,5% por eixo na pesagem
- Lei nº 11.442/2007 — Prazo de 5 horas para carga e descarga e valor de estadia por tonelada/hora (art. 11)
- ANP · Síntese semanal de preços, edição 40/2026 — Diesel S10 a R$ 7,35/l (média nacional) e R$ 7,74/l em Cuiabá, semana de 27/09 a 03/10/2026
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