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Caso real

Frete de grãos Rondonópolis–Santos: bitrem e rodotrem

Na safra, a pergunta do embarcador é quanto custa levar uma tonelada de soja do Mato Grosso ao porto. Calculamos o piso mínimo do bitrem e do rodotrem até Santos, convertemos para R$ por tonelada e conferimos se a carga cabe na balança.

Três cavalos mecânicos estacionados perto de um grande silo de grãos
Caminhões ao lado de um silo: no frete de grãos, a conta é feita por tonelada e depende de quanto cada composição leva. Foto: Roger Starnes Sr / Unsplash

O caso: uma trading contrata o transporte de soja em grão de Rondonópolis (MT) até um terminal no Porto de Santos (SP), a cerca de 1.400 km por rodovia (distância aproximada; varia com o trajeto e o terminal). Há duas composições na disputa: bitrem graneleiro de 7 eixos e rodotrem de 9 eixos. Lotação, composição completa (Tabela A), sem retorno vazio.

Resposta curta: o piso do bitrem é R$ 12.344,58 por viagem; com 37,5 t de carga útil, dá R$ 329,19 por tonelada. O rodotrem tem piso de R$ 14.113,43, mas leva 48,0 t: R$ 294,03 por tonelada, R$ 35,16 a menos. Pedágio à parte.

1. Por que Rondonópolis e por que por tonelada

Rondonópolis é um dos principais pontos de concentração de grãos do sul de Mato Grosso, com armazéns, indústrias de esmagamento e terminal ferroviário. Na safra, parte da produção segue de trem até Santos e parte vai direto pela rodovia, sobretudo quando a ferrovia está com a capacidade tomada ou quando o comprador quer entrega em terminal específico.

O mercado de grãos negocia frete em reais por tonelada. A tabela da ANTT, porém, calcula o piso por viagem, conforme o tipo de carga e o número de eixos, sem olhar o peso. Para saber se uma oferta em R$/t respeita o piso, é preciso dividir o piso da viagem pelas toneladas que o caminhão efetivamente leva. É aí que entra a balança.

A Resolução ANTT nº 5.867/2020 define carga sólida a granel como a carga sólida embarcada sem acondicionamento. Soja, milho, farelo e adubo a granel caem nessa linha da tabela.

2. O piso de cada composição

Os coeficientes são os da Portaria SUROC nº 22/2026, vigentes desde 30 de setembro de 2026.

Composição CCD (R$/km) CC (R$) Piso da viagem Piso por km
Bitrem 7 eixos 8,2316 820,34 R$ 12.344,58 R$ 8,82
Rodotrem 9 eixos 9,4318 908,91 R$ 14.113,43 R$ 10,08

O rodotrem tem piso por viagem 14,3% maior. A pergunta que importa é quanto ele leva a mais.

3. Conferindo o PBTC: quanto cada um pode levar

A Resolução CONTRAN nº 882/2021 fixa os limites por grupo de eixos. Na conta do bitrem de 7 eixos (cavalo 6x2 ou 6x4 com dois semirreboques de dois eixos), o eixo dianteiro direcional tem limite de 6 t e cada tandem duplo, 17 t: 57,0 t de PBTC. O rodotrem de 9 eixos considerado aqui (cavalo, semirreboque de dois eixos, dolly e segundo semirreboque de dois eixos) soma quatro tandens duplos: 74,0 t.

Para chegar à carga útil, usamos taras de exemplo: 19,5 t para o bitrem graneleiro e 26,0 t para o rodotrem, valores plausíveis para conjuntos com cavalo traçado. Cada transportador deve trocar pela tara do próprio CRLV ou pela pesagem vazia.

Item Bitrem 7 eixos Rodotrem 9 eixos
Limite de PBTC 57,0 t 74,0 t
PBTC com tolerância de 5% 59,85 t 77,70 t
Tara (premissa) 19,5 t 26,0 t
Carga útil no limite legal 37,5 t 48,0 t
Piso da viagem R$ 12.344,58 R$ 14.113,43
Piso por tonelada R$ 329,19 R$ 294,03
Piso por tonelada·km R$ 0,2351 R$ 0,2100

A tolerância de 5% no PBTC, prevista na Lei nº 7.408/1985 com a redação da Lei nº 14.229/2021, existe para cobrir imprecisão de carregamento e de balança. Ela não é carga útil extra: quem planeja carregar dentro da tolerância de propósito fica sem margem para o erro e corre risco de autuação.

Bitrem, R$/tR$ 329,19Rodotrem, R$/tR$ 294,03
Figura 1. Piso da ANTT por tonelada de granel sólido de Rondonópolis a Santos (cerca de 1.400 km), com cargas úteis de 37,5 t e 48 t (taras de exemplo).

4. A licença que o rodotrem exige

O ganho do rodotrem tem uma condição. Pela Resolução CONTRAN nº 882/2021, combinações com mais de duas unidades e PBTC acima de 57 t, ou com mais de 19,80 m, só circulam com Autorização Especial de Trânsito (AET). A mesma norma limita o PBTC a 74 t, exige comprimento entre 25 m e 30 m acima de 57 t, cavalo 6x4 e, como regra, circulação do amanhecer ao pôr do sol, com exceções para vias de pista dupla. O órgão rodoviário pode dispensar a AET em trechos que ele próprio publicar.

Na prática, isso tem custo: emissão e renovação da AET, cavalo traçado mais caro e restrição de horário, que pode acrescentar um pernoite numa viagem de 1.400 km. O bitrem de 7 eixos, com 57 t e dentro de 19,80 m, roda sem essa licença.

Grãos sendo descarregados de uma colheitadeira em uma carreta graneleira
Figura 2. Grão caindo na carreta graneleira: o peso embarcado precisa respeitar o PBTC da composição para não virar multa na balança. Foto: Roger Starnes Sr / Unsplash

5. Uma pesagem que dá errado

O erro mais comum na safra é carregar "no olho" e descobrir na balança. Suponha um bitrem que saiu do armazém com carga demais, concentrada no primeiro semirreboque: dianteiro com 6,1 t e tandens com 17,8 t, 19,4 t e 18,0 t.

O PBTC medido é de 61,3 t, acima do limite com tolerância (59,85 t). E o tandem mais carregado, com 19,4 t, passa dos 19,125 t que os 12,5% de tolerância por eixo permitem. São duas irregularidades na mesma pesagem. Como o limite de PBTC do bitrem passa de 50 t, o excesso por eixo é fiscalizado mesmo quando o peso total está em ordem.

Por isso, a carga útil máxima de 37,5 t só vale com a soja bem distribuída entre as duas caixas.

6. Diesel, piso e distância

Para medir o peso do combustível, duas premissas de exemplo: bitrem carregado a 2,2 km/l e rodotrem a 1,9 km/l, com diesel S10 a R$ 7,35/l, média nacional da ANP na semana de 27 de setembro a 3 de outubro de 2026. Em Cuiabá, a mesma pesquisa apontou R$ 7,74/l, e quem abastece em Mato Grosso deve ajustar.

O bitrem queima cerca de 636 litros na ida (R$ 4.677,27, ou R$ 124,73 por tonelada). O rodotrem, 737 litros (R$ 5.415,79, R$ 112,83 por tonelada). Com mais carga por litro, o rodotrem também ganha no diesel por tonelada.

A vantagem por tonelada se mantém em outras distâncias, como mostra a tabela.

Distância Bitrem, piso R$/t Rodotrem, piso R$/t Diferença por t
600 km R$ 153,58 R$ 136,83 R$ 16,75
1.000 km R$ 241,39 R$ 215,43 R$ 25,95
1.400 km R$ 329,19 R$ 294,03 R$ 35,16
1.800 km R$ 416,99 R$ 372,63 R$ 44,36
2.200 km R$ 504,80 R$ 451,23 R$ 53,57
012024036048060004008001.2001.6002.000Distância (km)Piso por tonelada (R$/t)Rondonópolis–SantosBitrem 7 eixosRodotrem 9 eixos
Figura 3. Piso da ANTT por tonelada de granel sólido conforme a distância, com as cargas úteis de exemplo de cada composição.

7. A fila do porto também é custo

Na safra, chegar a Santos não significa descarregar. Filas em pátios reguladores e terminais podem segurar o conjunto por horas. A Lei nº 11.442/2007 fixa em 5 horas o prazo máximo para carga e descarga; passado esse prazo, o transportador tem direito a um valor por tonelada e por hora de espera, calculado sobre a capacidade total do veículo. O texto da lei traz R$ 1,38 por tonelada/hora, valor que deve ser corrigido todo ano pelo INPC, de modo que o número atualizado é maior.

Mesmo com o valor histórico da lei, a conta é relevante: um bitrem com 37,5 t de capacidade que espera 12 horas para descarregar tem 7 horas além do prazo, ou pelo menos R$ 362,25 de estadia. No rodotrem, com 48,0 t, a mesma espera vale pelo menos R$ 463,68. A estadia não entra no piso e deve ser cobrada à parte, com o horário de chegada comprovado.

8. Checklist da cotação em R$/t

Perguntas frequentes

Qual o frete mínimo por tonelada de Rondonópolis a Santos em bitrem?

Com 37,5 t de carga útil e cerca de 1.400 km, R$ 329,19 por tonelada, a partir de um piso de R$ 12.344,58 por viagem.

E no rodotrem de 9 eixos?

R$ 294,03 por tonelada, com 48,0 t de carga útil e piso de R$ 14.113,43 por viagem.

Uma oferta de R$ 300 por tonelada respeita o piso?

No rodotrem, dá R$ 14.400,00, acima do piso. No bitrem, R$ 11.250,00, abaixo do piso de R$ 12.344,58.

Posso carregar o bitrem até 59,85 t usando a tolerância?

Não como rotina. A tolerância de 5% leva o limite a 59,85 t, mas o peso legal é 57,0 t; a margem serve para cobrir erros de carregamento e de balança.

O piso muda se a carga for milho ou farelo em vez de soja?

O piso por viagem não muda: todos são granel sólido, e o bitrem continua em R$ 12.344,58. O que pode mudar é o R$/t. Produtos menos densos às vezes enchem a caixa antes de atingir o peso; se o bitrem levar só 34 t, o piso por tonelada sobe para R$ 363,08.

Quanto o rodotrem economiza numa safra de 10 mil toneladas?

Pelo piso, a diferença de R$ 35,16 por tonelada soma R$ 351.590,08, antes dos custos da AET e da restrição de horário.

Na calculadora de frete por tonelada, informe o peso real embarcado, a distância e o número de eixos para conferir se o valor negociado cobre o piso.

Faça a conta: Frete por tonelada →

Fontes e referências

Conferimos datas, valores e vigência nas fontes acima antes de publicar. Erros e atualizações: veja a política editorial.

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