O frete compensa? Piso da ANTT contra o custo real
Receber o piso da ANTT não garante lucro. Pegamos o mesmo caminhão e a mesma rota de 900 km em duas situações e fizemos a conta completa: numa sobra dinheiro, na outra o caminhoneiro paga para trabalhar.
O caso: carreta de 5 eixos levando soja a granel numa rota de cerca de 900 km entre o Centro-Oeste e um armazém no interior paulista. O piso da ANTT (granel sólido, tabela A) é de R$ 6.834,15. Situação A: frete de R$ 7.300, com carga de retorno já combinada. Situação B: frete igual ao piso, volta vazia e três dias de fila para descarregar.
Resposta curta: na situação A sobram R$ 2.003 depois de pagar todos os custos, inclusive os fixos do caminhão. Na B, o resultado é um prejuízo de R$ 3.183: o frete cobre a estrada da ida, mas não a volta, a espera e as parcelas.
1. O piso não é o seu custo
A Lei 13.703/2018 obriga o contratante a pagar pelo menos o piso, e a redação dada em 2026 diz que os pisos devem refletir os custos operacionais totais do transporte. Mesmo assim, a tabela é uma média nacional por tipo de carga, número de eixos e distância. Ela não sabe se o seu caminhão é financiado, se a sua rota tem serra, se haverá fila no destino nem se você volta carregado.
Para granel sólido com 5 eixos, a conta da ANTT é simples: 900 km × 6,8548 (coeficiente de deslocamento) = R$ 6.169,32, mais R$ 664,83 de carga e descarga. Total: R$ 6.834,15, ou R$ 7,59 por km de ida. Para granel, o retorno vazio não entra no piso.
2. Como montar o custo real
A comparação honesta tem três camadas:
- Custo da estrada: diesel, Arla 32, pedágio, pneus e manutenção da viagem.
- Custo do tempo: diárias de comida e pernoite em cada dia fora, inclusive os parados.
- Custo fixo rateado: parcela do caminhão, seguro, IPVA, licenciamento, rastreador, contador e a retirada do motorista, divididos pelos quilômetros que o caminhão roda no mês.
As premissas do caminhão do caso:
- Diesel S10 a R$ 7,35 por litro, média nacional da ANP na semana de 27 de setembro a 3 de outubro de 2026.
- Consumo de 2,7 km/l carregado e 3,4 km/l vazio.
- Arla 32 a 5% do diesel, a R$ 3,90 por litro (valor de exemplo).
- Pneus e manutenção: R$ 0,50 por km.
- Pedágio informado pelo leitor: R$ 650 na ida carregada e R$ 430 na volta, com eixos suspensos, que a Lei 13.103/2015 isenta da cobrança quando o caminhão circula vazio.
- Fixos de R$ 16.650 por mês (parcela de R$ 9.000, seguro de R$ 1.800, IPVA e licenciamento de R$ 6.000 por ano, retirada de R$ 4.500, rastreador e outros), divididos por 11.000 km rodados no mês: R$ 1,51 por km.
- Diárias de R$ 160.
3. As duas viagens lado a lado
| Item | A: volta carregada | B: volta vazia e fila |
|---|---|---|
| Frete recebido | R$ 7.300,00 | R$ 6.834,15 |
| Diesel da ida | R$ 2.450,00 | R$ 2.450,00 |
| Pedágio, Arla e desgaste da ida | R$ 1.165,00 | R$ 1.165,00 |
| Volta vazia (diesel, pedágio, Arla, desgaste) | não se aplica | R$ 2.877,21 |
| Diárias | R$ 320,00 (2 dias) | R$ 800,00 (5 dias) |
| Fixos rateados | R$ 1.362,27 (900 km) | R$ 2.724,55 (1.800 km) |
| Custo total | R$ 5.297,27 | R$ 10.016,75 |
| Saldo | R$ 2.003 | −R$ 3.183 |
Na situação A, os quilômetros da volta e o fixo correspondente são pagos pelo frete de retorno, por isso não entram nesta viagem. É a lógica de quem trabalha em circuito: cada perna se paga sozinha.
Na situação B, tudo o que acontece depois da descarga é despesa sem receita. O frete pagou o piso, a lei foi cumprida, e mesmo assim faltaram R$ 3.183.
4. Onde a conta vira
O que separa as duas situações não é o valor do frete, que difere em menos de R$ 500. São a volta e o tempo parado. Cada dia de fila custa uma diária e, de forma menos visível, um dia a menos para rodar e diluir o fixo do mês.
A tabela abaixo mostra o saldo para quatro níveis de frete, de 90% a 120% do piso, com e sem carga de volta. A linha de 90% está ali só para mostrar o tamanho do problema: contratar abaixo do piso é proibido.
| Frete | Valor | Saldo com volta carregada | Saldo com volta vazia |
|---|---|---|---|
| 90% do piso | R$ 6.151 | R$ 853 | −R$ 3.866 |
| Piso | R$ 6.834 | R$ 1.537 | −R$ 3.183 |
| 110% do piso | R$ 7.518 | R$ 2.220 | −R$ 2.499 |
| 120% do piso | R$ 8.201 | R$ 2.904 | −R$ 1.816 |
Para a volta vazia empatar, o frete de ida precisaria chegar a R$ 10.017, ou 147% do piso. É por isso que motoristas de granel aceitam frete de retorno pelo piso, sem margem nenhuma: qualquer carga legal na volta melhora o resultado do circuito.
O gráfico mostra que a linha do custo com volta vazia corre acima do piso em qualquer distância, nas premissas deste caminhão. Com volta carregada, o piso fica acima do custo do começo ao fim.
5. O frete por km rodado, e não por km de ida
Um jeito rápido de enxergar a diferença é dividir o frete por todos os quilômetros que o caminhão roda por causa dele. Na situação A, os R$ 7.300 pagam só a ida: R$ 8,11 por km rodado. Na B, o mesmo tipo de frete precisa pagar ida e volta, e cai para R$ 3,80 por km rodado.
Agora compare com o custo do caminhão, que é de R$ 4,81 por km entre fixos e variáveis, sem contar pedágio e diárias. Quando o frete por km rodado fica abaixo desse número, não há negociação de diesel ou de posto que salve a viagem.
A fila também tem preço. Cada dia a mais esperando descarga soma R$ 160 de diária e, se o caminhão deixa de rodar os cerca de 500 km que faria num dia útil médio do mês, deixa de diluir R$ 757 de custo fixo. Na situação B, os três dias de espera pesam perto de R$ 2.750 quando se olha o mês inteiro.
6. O que conferir antes de dizer sim
- O piso certo: tipo de carga, número de eixos e tabela (A para composição completa, B quando o contratante só aluga o cavalo). Um eixo a menos ou a tabela errada mudam o valor.
- CIOT: o valor do frete no código de identificação da operação tem de ser igual ou superior ao piso.
- Vale-pedágio: deve ser pago à parte. Se vier embutido no frete, desconte antes de comparar com o piso.
- Prazo de descarga e estadia: pergunte o tempo médio de fila no armazém. Se for longo, negocie estadia por escrito.
- Prazo de pagamento: pela lei, até 30 dias úteis. Considere o custo de financiar o diesel até lá.
- Carga de volta: antes de carregar, procure frete de retorno saindo da região de destino.
7. Erros comuns na comparação
- Comparar o frete só com o diesel. Diesel e pedágio são a parte visível. Na situação A, os fixos rateados somam R$ 1.362, mais que o pedágio e o desgaste juntos.
- Esquecer que o fixo corre parado. A parcela do caminhão vence mesmo nos dias de fila.
- Achar que o piso inclui a volta. Só nos casos de retorno vazio obrigatório, como contêiner. Para granel, não.
- Aceitar abaixo do piso para não perder a carga. Além do prejuízo, a lei prevê que o contratante que descumpre o piso indenize o transportador em até duas vezes o valor do piso da operação.
Perguntas frequentes
Receber o piso da ANTT garante lucro?
Não. No caso B, o frete foi exatamente o piso, R$ 6.834, e o saldo ficou negativo em R$ 3.183 por causa da volta vazia e dos dias de fila.
Quanto custa por km a carreta do caso?
R$ 1,51 de fixos e R$ 3,29 de variáveis (diesel, Arla, pneus e manutenção), total de R$ 4,81 por km rodado, antes de pedágios e diárias.
Quanto precisa ser o frete para compensar a volta vazia?
Nas premissas do caso, ao menos R$ 10.017, cerca de 147% do piso para 900 km.
O piso de granel sólido inclui retorno vazio?
Não. O retorno entra no piso só quando é obrigatório pela regra da ANTT, como no transporte de contêineres e em frotas dedicadas por exigência sanitária ou de certificação.
Vale a pena aceitar frete de volta sem margem?
Quase sempre. No caso B, a volta vazia gastou R$ 2.877 entre diesel, pedágio, Arla e desgaste. Voltar carregado custaria mais, cerca de R$ 3.615, porque o consumo piora e os eixos descem. Ainda assim, um frete de retorno pago pelo piso, que vale também para a volta, deixaria o circuito R$ 6.096 melhor do que voltar vazio, considerando uma volta da mesma distância, com a mesma carga e os mesmos eixos.
O que fazer se oferecerem frete abaixo do piso?
Recusar ou pedir o valor da tabela por escrito. A lei prevê indenização ao transportador de até duas vezes o piso aplicável e punições ao contratante reincidente.
Confira o piso antes de negociar
Digite a distância, os eixos e o tipo de carga na calculadora de frete mínimo para ter o piso exato da sua viagem e, a partir dele, somar a volta e os dias parados que a tabela não enxerga.
Leia também: Como calcular o frete de caminhão, passo a passo
Fontes e referências
- ANTT — Calculadora oficial do piso mínimo de frete — Piso para granel sólido, 5 eixos, tabela A, 900 km
- Lei 13.703/2018 — Política Nacional de Pisos Mínimos do Transporte Rodoviário de Cargas — Obrigatoriedade do piso, indenização de até duas vezes o piso e prazo de pagamento
- ANP — Síntese semanal do comportamento dos preços dos combustíveis, edição 40/2026 — Diesel S10 a R$ 7,35/l, média nacional de 27/09 a 03/10/2026
- Lei 13.103/2015 — Lei do Motorista — Isenção de pedágio sobre eixos suspensos de caminhão vazio (art. 17)
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