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Caso real

O frete compensa? Piso da ANTT contra o custo real

Receber o piso da ANTT não garante lucro. Pegamos o mesmo caminhão e a mesma rota de 900 km em duas situações e fizemos a conta completa: numa sobra dinheiro, na outra o caminhoneiro paga para trabalhar.

Calculadora sobre a mesa ao lado de um notebook
Antes de aceitar um frete, compare o valor oferecido com o seu custo real, não só com o piso da ANTT. Foto: Jakub Żerdzicki / Unsplash

O caso: carreta de 5 eixos levando soja a granel numa rota de cerca de 900 km entre o Centro-Oeste e um armazém no interior paulista. O piso da ANTT (granel sólido, tabela A) é de R$ 6.834,15. Situação A: frete de R$ 7.300, com carga de retorno já combinada. Situação B: frete igual ao piso, volta vazia e três dias de fila para descarregar.

Resposta curta: na situação A sobram R$ 2.003 depois de pagar todos os custos, inclusive os fixos do caminhão. Na B, o resultado é um prejuízo de R$ 3.183: o frete cobre a estrada da ida, mas não a volta, a espera e as parcelas.

1. O piso não é o seu custo

A Lei 13.703/2018 obriga o contratante a pagar pelo menos o piso, e a redação dada em 2026 diz que os pisos devem refletir os custos operacionais totais do transporte. Mesmo assim, a tabela é uma média nacional por tipo de carga, número de eixos e distância. Ela não sabe se o seu caminhão é financiado, se a sua rota tem serra, se haverá fila no destino nem se você volta carregado.

Para granel sólido com 5 eixos, a conta da ANTT é simples: 900 km × 6,8548 (coeficiente de deslocamento) = R$ 6.169,32, mais R$ 664,83 de carga e descarga. Total: R$ 6.834,15, ou R$ 7,59 por km de ida. Para granel, o retorno vazio não entra no piso.

2. Como montar o custo real

A comparação honesta tem três camadas:

  1. Custo da estrada: diesel, Arla 32, pedágio, pneus e manutenção da viagem.
  2. Custo do tempo: diárias de comida e pernoite em cada dia fora, inclusive os parados.
  3. Custo fixo rateado: parcela do caminhão, seguro, IPVA, licenciamento, rastreador, contador e a retirada do motorista, divididos pelos quilômetros que o caminhão roda no mês.

As premissas do caminhão do caso:

3. As duas viagens lado a lado

Item A: volta carregada B: volta vazia e fila
Frete recebido R$ 7.300,00 R$ 6.834,15
Diesel da ida R$ 2.450,00 R$ 2.450,00
Pedágio, Arla e desgaste da ida R$ 1.165,00 R$ 1.165,00
Volta vazia (diesel, pedágio, Arla, desgaste) não se aplica R$ 2.877,21
Diárias R$ 320,00 (2 dias) R$ 800,00 (5 dias)
Fixos rateados R$ 1.362,27 (900 km) R$ 2.724,55 (1.800 km)
Custo total R$ 5.297,27 R$ 10.016,75
Saldo R$ 2.003 −R$ 3.183

Na situação A, os quilômetros da volta e o fixo correspondente são pagos pelo frete de retorno, por isso não entram nesta viagem. É a lógica de quem trabalha em circuito: cada perna se paga sozinha.

Na situação B, tudo o que acontece depois da descarga é despesa sem receita. O frete pagou o piso, a lei foi cumprida, e mesmo assim faltaram R$ 3.183.

Frete AR$ 7.300Custo AR$ 5.297Frete B (piso)R$ 6.834Custo BR$ 10.017
Figura 1. Frete recebido e custo total nas duas situações, mesma carreta e mesma rota de 900 km.
Duas carretas rodando em rodovia com montanhas ao fundo
Figura 2. Carretas na rodovia: retorno carregado ou vazio e dias de fila mudam completamente o resultado da mesma viagem. Foto: Bhargav Panchal / Unsplash

4. Onde a conta vira

O que separa as duas situações não é o valor do frete, que difere em menos de R$ 500. São a volta e o tempo parado. Cada dia de fila custa uma diária e, de forma menos visível, um dia a menos para rodar e diluir o fixo do mês.

A tabela abaixo mostra o saldo para quatro níveis de frete, de 90% a 120% do piso, com e sem carga de volta. A linha de 90% está ali só para mostrar o tamanho do problema: contratar abaixo do piso é proibido.

Frete Valor Saldo com volta carregada Saldo com volta vazia
90% do piso R$ 6.151 R$ 853 −R$ 3.866
Piso R$ 6.834 R$ 1.537 −R$ 3.183
110% do piso R$ 7.518 R$ 2.220 −R$ 2.499
120% do piso R$ 8.201 R$ 2.904 −R$ 1.816

Para a volta vazia empatar, o frete de ida precisaria chegar a R$ 10.017, ou 147% do piso. É por isso que motoristas de granel aceitam frete de retorno pelo piso, sem margem nenhuma: qualquer carga legal na volta melhora o resultado do circuito.

04.0008.00012.00016.00020.00002505007501.0001.2501.500Distância de ida (km)R$900 kmCusto, volta vaziaPiso ANTTCusto, volta carregada
Figura 3. Piso da ANTT para granel sólido com 5 eixos e custo total do caminhão do caso, por distância de ida, com e sem carga de volta.

O gráfico mostra que a linha do custo com volta vazia corre acima do piso em qualquer distância, nas premissas deste caminhão. Com volta carregada, o piso fica acima do custo do começo ao fim.

5. O frete por km rodado, e não por km de ida

Um jeito rápido de enxergar a diferença é dividir o frete por todos os quilômetros que o caminhão roda por causa dele. Na situação A, os R$ 7.300 pagam só a ida: R$ 8,11 por km rodado. Na B, o mesmo tipo de frete precisa pagar ida e volta, e cai para R$ 3,80 por km rodado.

Agora compare com o custo do caminhão, que é de R$ 4,81 por km entre fixos e variáveis, sem contar pedágio e diárias. Quando o frete por km rodado fica abaixo desse número, não há negociação de diesel ou de posto que salve a viagem.

Frete A por km rodadoR$ 8,11Frete B por km rodadoR$ 3,80Custo do caminhão por kmR$ 4,81
Figura 4. Frete dividido por todos os km rodados na operação, comparado ao custo fixo mais variável por km do caminhão do caso.

A fila também tem preço. Cada dia a mais esperando descarga soma R$ 160 de diária e, se o caminhão deixa de rodar os cerca de 500 km que faria num dia útil médio do mês, deixa de diluir R$ 757 de custo fixo. Na situação B, os três dias de espera pesam perto de R$ 2.750 quando se olha o mês inteiro.

6. O que conferir antes de dizer sim

7. Erros comuns na comparação

  1. Comparar o frete só com o diesel. Diesel e pedágio são a parte visível. Na situação A, os fixos rateados somam R$ 1.362, mais que o pedágio e o desgaste juntos.
  2. Esquecer que o fixo corre parado. A parcela do caminhão vence mesmo nos dias de fila.
  3. Achar que o piso inclui a volta. Só nos casos de retorno vazio obrigatório, como contêiner. Para granel, não.
  4. Aceitar abaixo do piso para não perder a carga. Além do prejuízo, a lei prevê que o contratante que descumpre o piso indenize o transportador em até duas vezes o valor do piso da operação.

Perguntas frequentes

Receber o piso da ANTT garante lucro?

Não. No caso B, o frete foi exatamente o piso, R$ 6.834, e o saldo ficou negativo em R$ 3.183 por causa da volta vazia e dos dias de fila.

Quanto custa por km a carreta do caso?

R$ 1,51 de fixos e R$ 3,29 de variáveis (diesel, Arla, pneus e manutenção), total de R$ 4,81 por km rodado, antes de pedágios e diárias.

Quanto precisa ser o frete para compensar a volta vazia?

Nas premissas do caso, ao menos R$ 10.017, cerca de 147% do piso para 900 km.

O piso de granel sólido inclui retorno vazio?

Não. O retorno entra no piso só quando é obrigatório pela regra da ANTT, como no transporte de contêineres e em frotas dedicadas por exigência sanitária ou de certificação.

Vale a pena aceitar frete de volta sem margem?

Quase sempre. No caso B, a volta vazia gastou R$ 2.877 entre diesel, pedágio, Arla e desgaste. Voltar carregado custaria mais, cerca de R$ 3.615, porque o consumo piora e os eixos descem. Ainda assim, um frete de retorno pago pelo piso, que vale também para a volta, deixaria o circuito R$ 6.096 melhor do que voltar vazio, considerando uma volta da mesma distância, com a mesma carga e os mesmos eixos.

O que fazer se oferecerem frete abaixo do piso?

Recusar ou pedir o valor da tabela por escrito. A lei prevê indenização ao transportador de até duas vezes o piso aplicável e punições ao contratante reincidente.

Confira o piso antes de negociar

Digite a distância, os eixos e o tipo de carga na calculadora de frete mínimo para ter o piso exato da sua viagem e, a partir dele, somar a volta e os dias parados que a tabela não enxerga.

Leia também: Como calcular o frete de caminhão, passo a passo

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Fontes e referências

Conferimos datas, valores e vigência nas fontes acima antes de publicar. Erros e atualizações: veja a política editorial.

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