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Bitruck ou carreta: qual compensa no frete

O piso da ANTT sobe com os eixos, mas a carga útil sobe mais. Veja quanto cada configuração leva, quanto custa por viagem e por tonelada, e por que o tamanho do lote decide a escolha.

Dois caminhões rígidos com carroceria baú em uma rodovia molhada entre morros e vegetação
Caminhão rígido ou carreta: a escolha depende de quanto o lote enche a carroceria e de onde a carga vai ser entregue. Foto: Zoshua Colah / Unsplash

O caso: uma indústria precisa levar 54 t de carga geral paletizada a 400 km e recebe três propostas: bitrucks (4 eixos), carretas 2S3 (5 eixos) ou carretas 3S3 (6 eixos). Taras, consumo e distância são premissas; o diesel é a média nacional do S10 na semana de 4 a 10 de outubro de 2026 (ANP), R$ 7,36 o litro.

Resposta curta: o piso da ANTT é cobrado por viagem e cresce com o número de eixos, mas a capacidade cresce mais. O bitruck leva até 18,0 t e precisa de 3 viagens: o lote sai por R$ 8.868,18 no piso. Com 2 carretas 2S3, sai por R$ 6.777,84; com 2 carretas 3S3, por R$ 7.371,62. A carreta compensa quando o lote enche a carroceria; o bitruck, quando a carga é menor, a entrega é fracionada ou o destino não recebe carreta.

O que muda entre bitruck e carreta

Os nomes confundem, mas a diferença é de configuração de eixos e, por consequência, de peso permitido. O bitruck é um caminhão rígido de 4 eixos: dois eixos dianteiros direcionais e um tandem duplo atrás. A carreta é uma combinação de cavalo mecânico com semirreboque. A 2S3 tem cavalo de 2 eixos e semirreboque de 3; a 3S3, cavalo de 3 eixos (o chamado cavalo trucado) e semirreboque de 3.

Os limites de peso vêm da Resolução Contran nº 882/2021, que fixa quanto cada eixo ou conjunto de eixos pode levar: 6 t no eixo dianteiro simples, 10 t no eixo isolado de rodagem dupla, 12 t em dois eixos direcionais, 17 t no tandem duplo e 25,5 t no tandem triplo do semirreboque. Somando os eixos de cada configuração:

Configuração Eixos Soma dos limites Tara (premissa) Carga útil Pneus rodando
Bitruck (8x2) 4 12 + 17 = 29,0 t 11,0 t 18,0 t 12
Carreta 2S3 5 6 + 10 + 25,5 = 41,5 t 14,5 t 27,0 t 18
Carreta 3S3 6 6 + 17 + 25,5 = 48,5 t 16,5 t 32,0 t 22

A tara varia muito com a carroceria (baú, sider, graneleira) e com o fabricante. Pese o seu conjunto vazio e use o número real. A regra do artigo 2º da resolução vale aqui: se o fabricante indicar limite menor que o do Contran, vale o do fabricante.

Outra diferença prática está na habilitação. Pelo artigo 143 do Código de Trânsito, o bitruck pede CNH categoria C. A carreta pede categoria E, exigida para combinações em que a unidade acoplada tem 6.000 kg ou mais de peso bruto total. Para quem contrata motorista, isso pesa no salário e na oferta de mão de obra.

O piso da ANTT por configuração

A Lei 13.703/2018 criou a política de pisos mínimos do frete, e a ANTT publica as tabelas por tipo de carga, número de eixos e distância. A atualização mais recente dos coeficientes foi a Portaria SUROC nº 22/2026, em vigor desde 30 de setembro de 2026, com o diesel S10 de referência a R$ 7,33 o litro. O piso é o valor mínimo por viagem: o peso embarcado não entra na conta.

Para carga geral, lotação, tabela A e 400 km, os pisos ficam assim:

Configuração Deslocamento Carga e descarga Piso da viagem Piso por km Piso por tonelada (carga útil cheia)
Bitruck (4 eixos) R$ 2.367,20 R$ 588,86 R$ 2.956,06 R$ 7,39 R$ 164,23
Carreta 2S3 (5 eixos) R$ 2.731,36 R$ 657,56 R$ 3.388,92 R$ 8,47 R$ 125,52
Carreta 3S3 (6 eixos) R$ 3.013,88 R$ 671,93 R$ 3.685,81 R$ 9,21 R$ 115,18

A última coluna é a que interessa ao embarcador que paga por tonelada: com a carroceria cheia, cada tonelada custa menos na carreta, porque o piso sobe menos do que a carga útil quando se acrescentam eixos. Para o transportador, a leitura é a inversa: aceitar um valor por tonelada com o veículo meio vazio pode deixar a viagem abaixo do piso, e o que a fiscalização da ANTT confere é o total da viagem.

BitruckR$ 164,23Carreta 2S3R$ 125,52Carreta 3S3R$ 115,18
Figura 1. Piso mínimo da ANTT (carga geral, tabela A, 400 km) dividido pela carga útil de cada configuração, com as taras de premissa do texto.

O lote decide: quantas viagens cada um precisa

O piso por tonelada só vale com a carroceria cheia. Na vida real, o lote raramente fecha certinho. No caso das 54 t, a conta é de viagens inteiras, porque não existe meia viagem:

Configuração Carga útil Viagens para 54 t Piso do lote Diesel do lote (premissa)
Bitruck 18,0 t 3 R$ 8.868,18 R$ 2.760,00
Carreta 2S3 27,0 t 2 R$ 6.777,84 R$ 2.180,74
Carreta 3S3 32,0 t 2 R$ 7.371,62 R$ 2.453,33

Repare na 3S3: as 2 viagens têm capacidade para 64,0 t, e o lote ocupa só 54 t. Sobram 10,0 t de espaço pago e não usado. Com esse lote, a 2S3 faz o mesmo serviço com o mesmo número de viagens e menos eixos. Se o lote fosse de 64 t, a 3S3 encheria as duas viagens e a conta mudaria.

Por isso a pergunta certa não é "qual caminhão é mais barato", e sim "qual configuração enche melhor a carroceria para este lote". Para lotes recorrentes, vale fazer a conta de viagens inteiras para cada opção antes de fechar contrato.

3 bitrucksR$ 8.868,182 carretas 2S3R$ 6.777,842 carretas 3S3R$ 7.371,62
Figura 2. Piso mínimo da ANTT somado para levar 54 t de carga geral a 400 km, em viagens inteiras. Carga útil conforme as taras de premissa.
Fileira de docas de carga com portas metálicas em um galpão comercial
Figura 3. Antes de escolher a configuração, confira se a doca e o pátio do destino recebem o veículo. Foto: Matthew Jackson / Unsplash

O que sobra para quem roda

Do lado do transportador, o diesel é o primeiro custo a sair do frete. Com as premissas de consumo carregado de 3,2 km/l no bitruck, 2,7 km/l na 2S3 e 2,4 km/l na 3S3, a viagem de 400 km fica assim, recebendo exatamente o piso:

Configuração Litros Diesel Diesel por km Sobra do piso após o diesel
Bitruck 125 l R$ 920,00 R$ 2,30 R$ 2.036,06
Carreta 2S3 148 l R$ 1.090,37 R$ 2,73 R$ 2.298,55
Carreta 3S3 167 l R$ 1.226,67 R$ 3,07 R$ 2.459,14

A sobra não é lucro. Dela ainda saem pneus, manutenção, Arla 32, parcela, seguro, licenciamento, rastreador e o salário do motorista. A carreta tem mais pneus para trocar (18 ou 22, contra 12 do bitruck), conjunto mais caro e motorista com CNH E. Para fechar a conta completa, use a calculadora de custo por km com os números do seu veículo.

O retorno vazio também pesa diferente. Quando a ANTT manda incluir o retorno, o valor depende dos eixos do veículo. E o pedágio, cobrado por eixo, é maior na carreta: num trecho em que o carro de passeio paga R$ 10, o bitruck paga R$ 40, a 2S3 paga R$ 50 e a 3S3 paga R$ 60, nas praças que cobram a tarifa básica por eixo. O pedágio fica fora do piso: pela Lei 10.209/2001, o embarcador paga o vale-pedágio à parte, e o valor não integra o frete.

Quando cada um compensa

O bitruck tende a compensar quando:

A carreta tende a compensar quando:

Checklist antes de escolher

  1. Tamanho do lote. Divida o lote pela carga útil real de cada opção e arredonde para cima. Esse é o número de viagens.
  2. Piso de cada viagem. Calcule o piso pela tabela da ANTT com o tipo de carga, os eixos e a distância. Multiplique pelo número de viagens.
  3. Tara real. Use o peso do conjunto vazio, não o da ficha técnica.
  4. Acesso no destino. Confirme restrição de circulação, horário e tamanho da doca.
  5. Pedágio e retorno. Some o vale-pedágio por eixo e confira se o retorno vazio entra na conta.
  6. Custo completo. Coloque diesel, pneus, manutenção e fixos na conta de custo por km antes de aceitar o valor.

Erros comuns

Perguntas frequentes

Quanto carrega um bitruck?

Pela soma dos limites da Resolução Contran 882/2021, o bitruck com dois eixos direcionais e tandem duplo tem limite de 29 t de peso bruto total. A carga útil é esse valor menos a tara: com 11 t de tara, 18 t. Vale o menor entre o limite do Contran e o do fabricante.

Qual a diferença de piso entre bitruck e carreta?

Na tabela A da ANTT para carga geral a 400 km, o piso do bitruck é de R$ 2.956,06, o da carreta de 5 eixos é de R$ 3.388,92 e o da carreta de 6 eixos é de R$ 3.685,81, sem pedágio.

Bitruck precisa de CNH E?

Não. O bitruck é um caminhão rígido e pede CNH categoria C. A carreta pede categoria E, porque o semirreboque passa de 6.000 kg de peso bruto total.

O piso da ANTT muda se eu carregar menos?

Não. O piso depende do tipo de carga, do número de eixos e da distância. Carregar menos não reduz o piso da viagem.

Pedágio entra no piso mínimo do frete?

Não. O vale-pedágio é pago pelo embarcador à parte, conforme a Lei 10.209/2001, e não integra o valor do frete. Ele é cobrado por eixo, então é maior na carreta do que no bitruck.

Leia também: Tipos de caminhão: eixos, peso máximo e medidas

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Fontes e referências

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