Bitruck ou carreta: qual compensa no frete
O piso da ANTT sobe com os eixos, mas a carga útil sobe mais. Veja quanto cada configuração leva, quanto custa por viagem e por tonelada, e por que o tamanho do lote decide a escolha.
O caso: uma indústria precisa levar 54 t de carga geral paletizada a 400 km e recebe três propostas: bitrucks (4 eixos), carretas 2S3 (5 eixos) ou carretas 3S3 (6 eixos). Taras, consumo e distância são premissas; o diesel é a média nacional do S10 na semana de 4 a 10 de outubro de 2026 (ANP), R$ 7,36 o litro.
Resposta curta: o piso da ANTT é cobrado por viagem e cresce com o número de eixos, mas a capacidade cresce mais. O bitruck leva até 18,0 t e precisa de 3 viagens: o lote sai por R$ 8.868,18 no piso. Com 2 carretas 2S3, sai por R$ 6.777,84; com 2 carretas 3S3, por R$ 7.371,62. A carreta compensa quando o lote enche a carroceria; o bitruck, quando a carga é menor, a entrega é fracionada ou o destino não recebe carreta.
O que muda entre bitruck e carreta
Os nomes confundem, mas a diferença é de configuração de eixos e, por consequência, de peso permitido. O bitruck é um caminhão rígido de 4 eixos: dois eixos dianteiros direcionais e um tandem duplo atrás. A carreta é uma combinação de cavalo mecânico com semirreboque. A 2S3 tem cavalo de 2 eixos e semirreboque de 3; a 3S3, cavalo de 3 eixos (o chamado cavalo trucado) e semirreboque de 3.
Os limites de peso vêm da Resolução Contran nº 882/2021, que fixa quanto cada eixo ou conjunto de eixos pode levar: 6 t no eixo dianteiro simples, 10 t no eixo isolado de rodagem dupla, 12 t em dois eixos direcionais, 17 t no tandem duplo e 25,5 t no tandem triplo do semirreboque. Somando os eixos de cada configuração:
| Configuração | Eixos | Soma dos limites | Tara (premissa) | Carga útil | Pneus rodando |
|---|---|---|---|---|---|
| Bitruck (8x2) | 4 | 12 + 17 = 29,0 t | 11,0 t | 18,0 t | 12 |
| Carreta 2S3 | 5 | 6 + 10 + 25,5 = 41,5 t | 14,5 t | 27,0 t | 18 |
| Carreta 3S3 | 6 | 6 + 17 + 25,5 = 48,5 t | 16,5 t | 32,0 t | 22 |
A tara varia muito com a carroceria (baú, sider, graneleira) e com o fabricante. Pese o seu conjunto vazio e use o número real. A regra do artigo 2º da resolução vale aqui: se o fabricante indicar limite menor que o do Contran, vale o do fabricante.
Outra diferença prática está na habilitação. Pelo artigo 143 do Código de Trânsito, o bitruck pede CNH categoria C. A carreta pede categoria E, exigida para combinações em que a unidade acoplada tem 6.000 kg ou mais de peso bruto total. Para quem contrata motorista, isso pesa no salário e na oferta de mão de obra.
O piso da ANTT por configuração
A Lei 13.703/2018 criou a política de pisos mínimos do frete, e a ANTT publica as tabelas por tipo de carga, número de eixos e distância. A atualização mais recente dos coeficientes foi a Portaria SUROC nº 22/2026, em vigor desde 30 de setembro de 2026, com o diesel S10 de referência a R$ 7,33 o litro. O piso é o valor mínimo por viagem: o peso embarcado não entra na conta.
Para carga geral, lotação, tabela A e 400 km, os pisos ficam assim:
| Configuração | Deslocamento | Carga e descarga | Piso da viagem | Piso por km | Piso por tonelada (carga útil cheia) |
|---|---|---|---|---|---|
| Bitruck (4 eixos) | R$ 2.367,20 | R$ 588,86 | R$ 2.956,06 | R$ 7,39 | R$ 164,23 |
| Carreta 2S3 (5 eixos) | R$ 2.731,36 | R$ 657,56 | R$ 3.388,92 | R$ 8,47 | R$ 125,52 |
| Carreta 3S3 (6 eixos) | R$ 3.013,88 | R$ 671,93 | R$ 3.685,81 | R$ 9,21 | R$ 115,18 |
A última coluna é a que interessa ao embarcador que paga por tonelada: com a carroceria cheia, cada tonelada custa menos na carreta, porque o piso sobe menos do que a carga útil quando se acrescentam eixos. Para o transportador, a leitura é a inversa: aceitar um valor por tonelada com o veículo meio vazio pode deixar a viagem abaixo do piso, e o que a fiscalização da ANTT confere é o total da viagem.
O lote decide: quantas viagens cada um precisa
O piso por tonelada só vale com a carroceria cheia. Na vida real, o lote raramente fecha certinho. No caso das 54 t, a conta é de viagens inteiras, porque não existe meia viagem:
| Configuração | Carga útil | Viagens para 54 t | Piso do lote | Diesel do lote (premissa) |
|---|---|---|---|---|
| Bitruck | 18,0 t | 3 | R$ 8.868,18 | R$ 2.760,00 |
| Carreta 2S3 | 27,0 t | 2 | R$ 6.777,84 | R$ 2.180,74 |
| Carreta 3S3 | 32,0 t | 2 | R$ 7.371,62 | R$ 2.453,33 |
Repare na 3S3: as 2 viagens têm capacidade para 64,0 t, e o lote ocupa só 54 t. Sobram 10,0 t de espaço pago e não usado. Com esse lote, a 2S3 faz o mesmo serviço com o mesmo número de viagens e menos eixos. Se o lote fosse de 64 t, a 3S3 encheria as duas viagens e a conta mudaria.
Por isso a pergunta certa não é "qual caminhão é mais barato", e sim "qual configuração enche melhor a carroceria para este lote". Para lotes recorrentes, vale fazer a conta de viagens inteiras para cada opção antes de fechar contrato.
O que sobra para quem roda
Do lado do transportador, o diesel é o primeiro custo a sair do frete. Com as premissas de consumo carregado de 3,2 km/l no bitruck, 2,7 km/l na 2S3 e 2,4 km/l na 3S3, a viagem de 400 km fica assim, recebendo exatamente o piso:
| Configuração | Litros | Diesel | Diesel por km | Sobra do piso após o diesel |
|---|---|---|---|---|
| Bitruck | 125 l | R$ 920,00 | R$ 2,30 | R$ 2.036,06 |
| Carreta 2S3 | 148 l | R$ 1.090,37 | R$ 2,73 | R$ 2.298,55 |
| Carreta 3S3 | 167 l | R$ 1.226,67 | R$ 3,07 | R$ 2.459,14 |
A sobra não é lucro. Dela ainda saem pneus, manutenção, Arla 32, parcela, seguro, licenciamento, rastreador e o salário do motorista. A carreta tem mais pneus para trocar (18 ou 22, contra 12 do bitruck), conjunto mais caro e motorista com CNH E. Para fechar a conta completa, use a calculadora de custo por km com os números do seu veículo.
O retorno vazio também pesa diferente. Quando a ANTT manda incluir o retorno, o valor depende dos eixos do veículo. E o pedágio, cobrado por eixo, é maior na carreta: num trecho em que o carro de passeio paga R$ 10, o bitruck paga R$ 40, a 2S3 paga R$ 50 e a 3S3 paga R$ 60, nas praças que cobram a tarifa básica por eixo. O pedágio fica fora do piso: pela Lei 10.209/2001, o embarcador paga o vale-pedágio à parte, e o valor não integra o frete.
Quando cada um compensa
O bitruck tende a compensar quando:
- o lote fica perto de 18 t ou abaixo, e uma carreta rodaria com espaço sobrando;
- a rota tem várias entregas, ruas estreitas ou docas que não recebem carreta;
- a distância é curta e a carga e descarga pesam mais que o deslocamento;
- a contratação de motorista com CNH E é difícil ou cara na região.
A carreta tende a compensar quando:
- o lote enche a carroceria ou passa de duas viagens de bitruck;
- a rota é longa e a maior parte do custo é deslocamento;
- o embarcador paga por tonelada e quer o menor custo unitário;
- o destino tem pátio e doca que recebem carreta.
Checklist antes de escolher
- Tamanho do lote. Divida o lote pela carga útil real de cada opção e arredonde para cima. Esse é o número de viagens.
- Piso de cada viagem. Calcule o piso pela tabela da ANTT com o tipo de carga, os eixos e a distância. Multiplique pelo número de viagens.
- Tara real. Use o peso do conjunto vazio, não o da ficha técnica.
- Acesso no destino. Confirme restrição de circulação, horário e tamanho da doca.
- Pedágio e retorno. Some o vale-pedágio por eixo e confira se o retorno vazio entra na conta.
- Custo completo. Coloque diesel, pneus, manutenção e fixos na conta de custo por km antes de aceitar o valor.
Erros comuns
- Comparar só o frete da viagem. O bitruck cobra menos por viagem, mas pode precisar de mais viagens para o mesmo lote.
- Comparar só o custo por tonelada. O valor por tonelada da carreta só vale com a carroceria cheia.
- Usar a soma dos eixos como capacidade. A carga útil é o limite legal menos a tara. Implemento pesado come carga útil.
- Esquecer que o piso é por viagem. Frete por tonelada com veículo meio vazio pode ficar abaixo do piso da ANTT.
- Colocar o pedágio dentro do frete. O vale-pedágio é obrigação do embarcador e vem separado.
Perguntas frequentes
Quanto carrega um bitruck?
Pela soma dos limites da Resolução Contran 882/2021, o bitruck com dois eixos direcionais e tandem duplo tem limite de 29 t de peso bruto total. A carga útil é esse valor menos a tara: com 11 t de tara, 18 t. Vale o menor entre o limite do Contran e o do fabricante.
Qual a diferença de piso entre bitruck e carreta?
Na tabela A da ANTT para carga geral a 400 km, o piso do bitruck é de R$ 2.956,06, o da carreta de 5 eixos é de R$ 3.388,92 e o da carreta de 6 eixos é de R$ 3.685,81, sem pedágio.
Bitruck precisa de CNH E?
Não. O bitruck é um caminhão rígido e pede CNH categoria C. A carreta pede categoria E, porque o semirreboque passa de 6.000 kg de peso bruto total.
O piso da ANTT muda se eu carregar menos?
Não. O piso depende do tipo de carga, do número de eixos e da distância. Carregar menos não reduz o piso da viagem.
Pedágio entra no piso mínimo do frete?
Não. O vale-pedágio é pago pelo embarcador à parte, conforme a Lei 10.209/2001, e não integra o valor do frete. Ele é cobrado por eixo, então é maior na carreta do que no bitruck.
Leia também: Tipos de caminhão: eixos, peso máximo e medidas
Fontes e referências
- Resolução Contran nº 882/2021 – limites de pesos e dimensões — Art. 2º (vale o menor limite entre fabricante e Contran) e art. 6º (limites por eixo e conjunto). Cópia hospedada pela UDOP.
- ANTT atualiza coeficientes do Piso Mínimo do Frete e divulga novo preço de referência do diesel (Portaria SUROC nº 22/2026) — Notícia de 30/09/2026: diesel S10 de referência a R$ 7,33/l, novos coeficientes em vigor desde 30/09/2026.
- ANP – Síntese semanal do comportamento dos preços dos combustíveis, edição nº 41/2026 — Diesel B S10, média Brasil de R$ 7,36/l na semana de 4 a 10/10/2026.
- Lei nº 13.703/2018 – Política Nacional de Pisos Mínimos do Transporte Rodoviário de Cargas — Base legal do piso mínimo por tipo de carga, eixos e distância.
- Lei nº 10.209/2001 – Vale-Pedágio obrigatório — Art. 2º: o valor do vale-pedágio não integra o valor do frete.
- Código de Trânsito Brasileiro (Lei nº 9.503/1997), art. 143 — Categorias C (veículo de carga acima de 3.500 kg) e E (combinação com unidade acoplada de 6.000 kg ou mais).
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