Carga frigorificada x carga geral: o piso da ANTT
A mesma carreta, a mesma estrada, o mesmo destino. Basta trocar a mercadoria seca por uma que precisa viajar a frio para o piso mínimo mudar de patamar. Fizemos a conta para 800 km com 5 e 6 eixos.
O caso: um frigorífico de aves contrata uma carreta baú refrigerada para levar produto congelado até um centro de distribuição a cerca de 800 km (distância aproximada, rota hipotética). A transportadora tem dois conjuntos disponíveis: um de 5 eixos e outro de 6 eixos. Contratação por lotação, composição completa (Tabela A), sem retorno vazio.
Resposta curta: com 6 eixos, o piso da carga frigorificada é R$ 7.885,23, contra R$ 6.699,69 se a mesma carreta levasse carga geral: R$ 1.185,54 a mais (17,7%). Com 5 eixos, o piso refrigerado é R$ 7.207,82, ou R$ 1.087,54 acima da carga geral. Pedágio à parte.
1. Por que a tabela trata o frio como outra carga
A Resolução ANTT nº 5.867/2020 separa os pisos por tipo de carga. No art. 2º, carga geral é a mercadoria embarcada com acondicionamento e marca de identificação. Carga frigorificada ou aquecida é a que precisa ser refrigerada, congelada ou aquecida durante o transporte. A diferença de enquadramento não depende do baú em si, e sim da necessidade da mercadoria: um lote de frango congelado é frigorificado mesmo que alguém tente declará-lo como carga geral.
Os coeficientes maiores refletem a estrutura de custo da operação. O conjunto refrigerado tem implemento mais caro (baú isolado e equipamento de refrigeração), manutenção adicional do aparelho, consumo de diesel do próprio equipamento e, em geral, mais tempo parado em doca com temperatura controlada. Tudo isso entra no custo de deslocamento (CCD) e no de carga e descarga (CC).
2. Parcela por parcela, com 5 e 6 eixos
O piso é distância × CCD + CC. A tabela abaixo usa os coeficientes da Portaria SUROC nº 22/2026, em vigor desde 30 de setembro de 2026.
| Configuração e carga | CCD (R$/km) | CC (R$) | Deslocamento (800 km) | Piso total |
|---|---|---|---|---|
| 5 eixos, carga geral | 6,8284 | 657,56 | R$ 5.462,72 | R$ 6.120,28 |
| 5 eixos, frigorificada | 8,0623 | 757,98 | R$ 6.449,84 | R$ 7.207,82 |
| 6 eixos, carga geral | 7,5347 | 671,93 | R$ 6.027,76 | R$ 6.699,69 |
| 6 eixos, frigorificada | 8,8911 | 772,35 | R$ 7.112,88 | R$ 7.885,23 |
Dois números explicam quase tudo. No CCD, o frio acrescenta R$ 1,3564 por km com 6 eixos e R$ 1,2339 com 5 eixos. No CC, a diferença é de R$ 100,42 nas duas configurações. Em 800 km, a parte que vem do deslocamento responde por 92% do acréscimo de 6 eixos. Ou seja: o frio pesa principalmente por quilômetro rodado, e não pela parada para carregar.
Entre as duas carretas refrigeradas, a de 6 eixos tem piso R$ 677,41 maior. Se o produto congelado cabe no peso de um conjunto de 5 eixos, o piso menor é legítimo. O que não se pode fazer é contratar um conjunto de 6 eixos e declarar 5, porque a ANTT conta todos os eixos da composição, inclusive os suspensos.
3. A diferença cresce com a distância
Como o acréscimo do frio está concentrado no CCD, a distância amplia o valor absoluto da diferença. Em porcentagem, quase não se mexe: o acréscimo fica entre 17% e 18% em qualquer distância razoável.
| Distância (6 eixos) | Carga geral | Frigorificada | Diferença | Acréscimo |
|---|---|---|---|---|
| 200 km | R$ 2.178,87 | R$ 2.550,57 | R$ 371,70 | 17,1% |
| 400 km | R$ 3.685,81 | R$ 4.328,79 | R$ 642,98 | 17,4% |
| 800 km | R$ 6.699,69 | R$ 7.885,23 | R$ 1.185,54 | 17,7% |
| 1.200 km | R$ 9.713,57 | R$ 11.441,67 | R$ 1.728,10 | 17,8% |
| 1.600 km | R$ 12.727,45 | R$ 14.998,11 | R$ 2.270,66 | 17,8% |
Para quem cota com frequência, uma regra prática: com 6 eixos, cada 100 km de carga refrigerada custam no piso R$ 135,64 a mais que a carga seca. Nas rotas curtas, a diferença fixa de R$ 100,42 no CC ganha peso relativo, mas continua sendo a menor parte do acréscimo.
4. Quanto o frio custa de verdade na viagem
O piso é um mínimo legal calculado sobre custos médios. Vale comparar com o que a viagem consome para ver se a margem existe. Duas premissas de exemplo, que cada transportador deve trocar pelas suas: carreta carregada fazendo 2,5 km/l e equipamento de refrigeração consumindo 2,5 litros por hora. O diesel S10 está a R$ 7,35/l, média nacional da ANP na semana de 27 de setembro a 3 de outubro de 2026.
A ida consome cerca de 320 litros no motor, ou R$ 2.352,00. Para o aparelho, considerando 12,3 horas rodando a 65 km/h de média e mais 3 horas de doca e pré-resfriamento, são 15,3 horas de funcionamento, 38 litros e R$ 281,28.
| Item da ida (800 km, 6 eixos) | Valor |
|---|---|
| Diesel do motor (320 l) | R$ 2.352,00 |
| Diesel do equipamento de frio (38 l) | R$ 281,28 |
| Combustível total | R$ 2.633,28 |
| Acréscimo do piso pelo frio | R$ 1.185,54 |
| Piso frigorificado | R$ 7.885,23 |
Nesse exemplo, o diesel do aparelho consome 24% do acréscimo que a tabela dá ao frio. O restante tem de cobrir o baú isolado, que custa mais e se desvaloriza mais rápido que uma carreta seca, a manutenção do equipamento e as horas extras de espera. Quem roda com aparelho mais antigo, ou com produto congelado a temperaturas muito baixas, gasta mais e deve medir o próprio consumo pelo horímetro do equipamento.
5. Casos de enquadramento que geram dúvida
Carga mista. Uma lotação que leva paletes congelados e caixas de produto seco na mesma viagem precisa de um único enquadramento. A Resolução nº 6.076/2026 definiu que, nesse caso, vale o tipo da carga de maior valor no documento fiscal. Se o congelado é o item de maior valor na nota, o piso é o de frigorificada.
Produto refrigerado e perigoso. Existe uma linha própria para perigosa frigorificada ou aquecida. Com 6 eixos e 800 km, o piso vai a R$ 8.516,07, R$ 630,84 acima da frigorificada comum.
Baú refrigerado com o aparelho desligado. O que manda é a mercadoria. Se a carga não precisa de frio e viaja num baú refrigerado por conveniência, o enquadramento pode ser carga geral. O inverso não vale: mercadoria que precisa de temperatura controlada não vira carga geral porque o aparelho foi desligado.
Carga aquecida. A mesma linha cobre produtos que viajam aquecidos, como alguns produtos asfálticos e químicos. Na prática, muitos desses também se enquadram como perigosos.
6. O que conferir no contrato e no CIOT
- Tipo de carga igual ao da nota fiscal. Produto congelado ou resfriado registrado como carga geral deixa o piso declarado abaixo do devido.
- Temperatura de transporte especificada. A faixa (por exemplo, -18 °C para congelados) é o que justifica o enquadramento e protege as duas partes em caso de avaria.
- Número real de eixos. Conjunto de 6 eixos é contado como 6, mesmo com um eixo suspenso.
- Distância combinada por escrito. Ela multiplica o CCD mais alto da tabela de frio.
- Tempo de doca. A espera por janela de descarga em câmara fria é comum; combine quem paga a estadia além do prazo legal.
- Pedágio separado. Ele não integra o piso e deve ser somado.
7. Onde o embarcador pode economizar sem furar o piso
O piso de cada viagem é intocável, mas o custo total da operação refrigerada tem outras alavancas.
Ocupar o conjunto certo. Se o volume mensal permite, consolidar duas cargas de 5 eixos numa de 6 eixos reduz o número de viagens. Em 800 km, duas viagens de 5 eixos somam R$ 14.415,64 de piso; uma de 6 eixos, R$ 7.885,23. A troca só faz sentido se o peso e o volume realmente couberem.
Reduzir espera em doca. Cada hora a mais com o aparelho ligado e o motorista parado é custo que o transportador vai repassar na cotação, além do piso. Agendamento de janela e pré-resfriamento do baú antes da chegada encurtam o tempo de carga.
Oferecer carga de retorno. Um frigorífico que também recebe insumos, como embalagens, pode casar a volta com o mesmo transportador. A volta é outra operação com piso próprio, mas o preço de ida tende a cair quando o caminhão não precisa voltar vazio.
Contratos com distância fixa. Registrar a quilometragem combinada evita discussões a cada viagem e deixa claro, no CIOT, que o valor pago está acima do mínimo.
8. Erros comuns
O primeiro é aplicar um percentual fixo sobre a carga geral para chegar ao piso refrigerado. O acréscimo vai de 17,1% a 17,8% conforme a distância com 6 eixos, e muda com o número de eixos. Use os coeficientes.
O segundo é tratar o diesel do aparelho como custo do embarcador, fora do frete. Ele já está considerado no CCD da carga frigorificada; cobrar à parte, sem previsão contratual, gera discussão.
O terceiro é usar a tabela de julho depois de 30 de setembro de 2026. A Portaria SUROC nº 22/2026 trocou os coeficientes, e um contrato antigo pode ter ficado abaixo do piso.
Perguntas frequentes
Quanto é o frete mínimo de carga frigorificada para 800 km com 6 eixos?
R$ 7.885,23, ou R$ 9,86 por km, pela Tabela A, sem pedágio.
E com 5 eixos?
R$ 7.207,82, ou R$ 1.087,54 acima da carga geral na mesma configuração.
Quanto a mais por km a carga refrigerada paga?
No CCD de 6 eixos, R$ 1,36 por km. Somando a diferença de CC diluída em 800 km, o piso por km sobe de R$ 8,37 para R$ 9,86.
O piso já inclui o diesel do aparelho de frio?
Os coeficientes maiores da carga frigorificada existem justamente para refletir custos como o do equipamento, e não há previsão de cobrá-lo à parte do piso. No exemplo, o aparelho gasta cerca de R$ 281,28 na ida, menos que o acréscimo de R$ 1.185,54 do piso.
Em 400 km a diferença é proporcional?
Quase. Com 6 eixos, a diferença em 400 km é de R$ 642,98, pouco mais da metade dos R$ 1.185,54 de 800 km, porque a diferença de CC não depende da distância.
Na calculadora de frete mínimo, escolha "Frigorificada ou Aquecida", informe a distância e o número real de eixos para conferir o piso da sua rota.
Fontes e referências
- Portaria SUROC nº 22/2026 (ANTT) — Coeficientes CCD e CC de carga geral, frigorificada e perigosa frigorificada vigentes desde 30/09/2026
- Resolução ANTT nº 5.867/2020 — Definições de carga geral e de carga frigorificada ou aquecida (art. 2º) e fórmula do piso (art. 5º)
- Resolução ANTT nº 6.076/2026 — Regra de enquadramento da carga mista pelo tipo de maior valor no documento fiscal
- Lei nº 13.703/2018 — Obrigatoriedade do piso, indenização ao transportador e registro no CIOT
- ANP · Síntese semanal de preços, edição 40/2026 — Diesel S10 a R$ 7,35/l, média nacional da semana de 27/09 a 03/10/2026
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