Tabela A x Tabela B da ANTT: contratar só o cavalo
Quem tem carretas próprias e contrata só a tração paga pela Tabela B da ANTT, não pela Tabela A. A diferença existe, mas é menor do que muita gente imagina. Fizemos a conta numa viagem de 600 km.
O caso: uma transportadora com semirreboques próprios de três eixos precisa de mais tração para uma demanda sazonal. Ela contrata um caminhoneiro autônomo com cavalo mecânico 6x4, engata a carreta da empresa e manda a carga geral para um cliente a 600 km. A composição rodando tem 6 eixos. Qual piso vale: o da composição completa ou o só da tração?
Resposta curta: vale a Tabela B, porque só a unidade de tração foi contratada. O piso cai de R$ 5.192,75 (Tabela A) para R$ 4.680,77, uma redução de R$ 511,98, ou 9,9%. O número de eixos usado continua sendo o da composição inteira: 6.
1. A diferença entre as tabelas, em uma frase
A Tabela A remunera quem entrega o conjunto completo, ou o caminhão simples: cavalo e carreta, com pneus, manutenção e capital investido nos dois. A Tabela B remunera quem entrega só o cavalo mecânico. A Resolução nº 6.076/2026, que alterou a metodologia, deixou explícito que certos custos ligados ao implemento são excluídos quando a operação é só de tração.
O detalhe que confunde: a Tabela B não é aplicada pelo número de eixos do cavalo. O § 2º do art. 5º da Resolução nº 5.867/2020 manda usar os coeficientes da Tabela B e o número de eixos da composição veicular. Um cavalo 6x4 com carreta de três eixos entra na coluna de 6 eixos, mesmo que só três desses eixos pertençam ao contratado.
2. A conta do caso
| Parcela (carga geral, 6 eixos, 600 km) | Tabela A | Tabela B | Diferença |
|---|---|---|---|
| CCD (R$/km) | 7,5347 | 6,7863 | 0,7484 |
| Deslocamento | R$ 4.520,82 | R$ 4.071,78 | R$ 449,04 |
| Carga e descarga | R$ 671,93 | R$ 608,99 | R$ 62,94 |
| Piso | R$ 5.192,75 | R$ 4.680,77 | R$ 511,98 |
| Piso por km | R$ 8,65 | R$ 7,80 | R$ 0,85 |
A carreta própria "economiza" para o contratante R$ 0,75 por km rodado e R$ 62,94 por viagem. Isso não significa que a carreta seja de graça: os pneus, a manutenção, o licenciamento e a depreciação do semirreboque passam a ser custo de quem é dono dela.
3. A diferença por número de eixos
A Tabela B só tem coeficientes a partir de 4 eixos, o que faz sentido: abaixo disso não há composição com cavalo e reboque separáveis. Para carga geral, a diferença cresce com o tamanho do conjunto, porque bitrens e rodotrens têm mais implemento por trás da tração.
| Eixos da composição | Tabela A | Tabela B | Redução | Redução (%) |
|---|---|---|---|---|
| 4 | R$ 4.139,66 | R$ 3.745,68 | R$ 393,98 | 9,5% |
| 5 | R$ 4.754,60 | R$ 4.248,62 | R$ 505,98 | 10,6% |
| 6 | R$ 5.192,75 | R$ 4.680,77 | R$ 511,98 | 9,9% |
| 7 | R$ 5.795,28 | R$ 5.051,17 | R$ 744,11 | 12,8% |
| 9 | R$ 6.550,16 | R$ 5.595,96 | R$ 954,20 | 14,6% |
Carga geral, 600 km, sem pedágio. No rodotrem de 9 eixos, quem fornece os dois semirreboques e o dolly e contrata só o cavalo paga R$ 954,20 a menos de piso nesta distância.
4. E por tipo de carga
Na Tabela B, carga geral, granel sólido, conteinerizada e neogranel têm os mesmos coeficientes. Faz sentido: o cavalo é o mesmo, o que muda de uma carga para outra é sobretudo o implemento. Mesmo assim, granel líquido, frigorificada e perigosa mantêm valores próprios.
| Tipo de carga (6 eixos, 600 km) | Tabela A | Tabela B | Redução (%) |
|---|---|---|---|
| Carga geral | R$ 5.192,75 | R$ 4.680,77 | 9,9% |
| Granel sólido | R$ 5.218,47 | R$ 4.680,77 | 10,3% |
| Granel líquido | R$ 5.352,04 | R$ 4.719,83 | 11,8% |
| Frigorificada ou aquecida | R$ 6.107,01 | R$ 5.436,64 | 11,0% |
| Perigosa (carga geral) | R$ 5.551,21 | R$ 5.039,23 | 9,2% |
Entre os cinco tipos, o granel líquido é o que mais cai ao trocar de tabela, 11,8%, o que combina com o peso de um semirreboque-tanque no custo do conjunto. A carga perigosa é a que menos cai, 9,2%: na Tabela B ela continua com coeficientes acima dos da carga geral, ou seja, a metodologia mantém um adicional para a operação de perigosos mesmo quando só o cavalo é contratado.
5. A distância muda a vantagem?
Pouco, em termos percentuais. Em 200 km, a Tabela B fica 9,8% abaixo da A (R$ 1.966,25 contra R$ 2.178,87). Em 1.500 km, 9,9% abaixo (R$ 10.788,44 contra R$ 11.973,98). Em reais, a diferença cresce com a distância, porque a maior parte dela está no CCD.
6. Ter carreta própria compensa? A conta do lado do contratante
A diferença de piso é o teto do que a transportadora pode economizar ao fornecer o implemento. Com 10 viagens por mês como a do caso, a soma das diferenças chega a R$ 5.119,80 por mês, para 6.000 km rodados com carga.
Dividido pelos quilômetros, isso dá R$ 0,85 por km. É esse o número a comparar com o custo real do semirreboque: pneus (três eixos, seis ou doze pneus conforme o rodado), lonas e freios, licenciamento, seguro, rastreamento e depreciação, além do tempo parado no pátio. Se o custo por km da carreta própria passa desse valor, a economia de piso não paga o implemento, e contratar o conjunto completo pela Tabela A sai mais barato no fim do mês.
Há também ganhos que não aparecem no piso: carreta padronizada para o cliente, controle de higienização em cargas sensíveis e possibilidade de deixar o semirreboque carregando enquanto o cavalo roda outra perna.
7. E do lado de quem fornece o cavalo
Para o autônomo, a Tabela B não é desconto: é a remuneração do que ele efetivamente põe na estrada. Mesmo assim, vale conferir quanto do piso já está comprometido com combustível. Com consumo de 2,4 km/l (premissa para cavalo 6x4 tracionando carreta de três eixos carregada) e diesel S10 a R$ 7,33 por litro, preço de referência adotado pela Portaria SUROC nº 22/2026 para a semana de 20 a 26 de setembro de 2026, a ida consome 250 litros, ou R$ 1.832,50. Isso é 39% do piso da Tabela B.
O que sobra precisa cobrir pneus do cavalo, manutenção, salário ou pró-labore do motorista, seguro, parcela do financiamento e a volta. Quem aceita trabalhar pelo piso cravado, sem carga de retorno, dificilmente fecha a conta.
8. Quando a Tabela B é a correta, e quando não é
É a correta quando o contrato e a prática mostram que o contratado só fornece o cavalo e o motorista: a carreta pertence ao contratante, a um operador logístico ou a terceiro com quem o contratado não tem relação. É o modelo de pátios de troca de carreta, de operações com semirreboque dedicado ao cliente e de transportadoras que mantêm frota de implementos maior que a de cavalos.
Não é a correta quando o autônomo traz o próprio conjunto, mesmo que a carreta esteja registrada em nome de parente ou de outra empresa sua. Também não cabe quando o contratante empresta uma carreta só no papel para enquadrar a operação na tabela mais barata. A diferença de cerca de 10% no piso não compensa o risco: pagar abaixo do piso aplicável sujeita o contratante a indenizar o transportador em até duas vezes o valor do piso da operação, além das sanções da ANTT.
9. O que deixar registrado
- Contrato de frete dizendo que só a tração foi contratada, com placa do cavalo e do implemento.
- Número de eixos da composição, não só do cavalo. Eixos suspensos também contam.
- Propriedade do semirreboque identificada (CRLV), para não haver dúvida sobre quem forneceu o quê.
- CIOT com a tabela coerente. Quando o contratado é transportador autônomo, quem emite o CIOT é o contratante, e o valor registrado precisa respeitar o piso da Tabela B.
- Retorno vazio, se houver obrigação. Em contêiner ou frota dedicada por razão sanitária, a volta é calculada sobre o CCD da composição, e não sobre o da Tabela B.
- Pedágio à parte, inclusive dos eixos do implemento fornecido pelo contratante.
Perguntas frequentes
Contratando só o cavalo, uso a coluna de 3 eixos?
Não. A Tabela B usa o número de eixos da composição inteira. Um cavalo 6x4 com carreta de três eixos entra na coluna de 6 eixos: R$ 4.680,77 para 600 km de carga geral.
Quanto a Tabela B economiza por km?
Para carga geral com 6 eixos, o CCD cai de R$ 7,5347 para R$ 6,7863, ou R$ 0,75 a menos por km, além de R$ 62,94 a menos no CC.
Existe Tabela B para caminhão truck?
Não. Os coeficientes da Tabela B começam em 4 eixos. Caminhões simples de 2 e 3 eixos usam a Tabela A.
A Tabela B vale para frigorificada?
Vale, com coeficientes próprios. Em 600 km com 6 eixos, o piso só do cavalo é R$ 5.436,64, contra R$ 6.107,01 do conjunto completo.
E se a operação for de alto desempenho?
Aí entram as Tabelas C (composição completa) e D (só tração), para frota dedicada com carga e descarga em até três horas, com CC bem menor.
Na calculadora de frete mínimo, escolha "apenas unidade de tração" para ver o piso pela Tabela B com a sua distância e os eixos da composição.
Fontes e referências
- Resolução ANTT nº 5.867/2020 — Art. 5º, §§ 1º e 2º: piso da composição completa (Tabela A) e só da unidade de tração (Tabela B)
- Portaria SUROC nº 22/2026 (ANTT) — Coeficientes das Tabelas A e B vigentes desde 30/09/2026
- Resolução ANTT nº 6.076/2026 — Exclusão de custos do implemento na operação só de tração e contagem de todos os eixos
- Lei nº 13.703/2018 — Fatores obrigatórios da metodologia (configuração do veículo e número de eixos) e emissão do CIOT
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