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Caso real

Tabela A x Tabela B da ANTT: contratar só o cavalo

Quem tem carretas próprias e contrata só a tração paga pela Tabela B da ANTT, não pela Tabela A. A diferença existe, mas é menor do que muita gente imagina. Fizemos a conta numa viagem de 600 km.

Cavalo mecânico vermelho e branco sem semirreboque em rodovia
Cavalo mecânico sem carreta: quando só a tração é contratada, o piso é o da Tabela B. Foto: Esteban Zapata / Unsplash

O caso: uma transportadora com semirreboques próprios de três eixos precisa de mais tração para uma demanda sazonal. Ela contrata um caminhoneiro autônomo com cavalo mecânico 6x4, engata a carreta da empresa e manda a carga geral para um cliente a 600 km. A composição rodando tem 6 eixos. Qual piso vale: o da composição completa ou o só da tração?

Resposta curta: vale a Tabela B, porque só a unidade de tração foi contratada. O piso cai de R$ 5.192,75 (Tabela A) para R$ 4.680,77, uma redução de R$ 511,98, ou 9,9%. O número de eixos usado continua sendo o da composição inteira: 6.

1. A diferença entre as tabelas, em uma frase

A Tabela A remunera quem entrega o conjunto completo, ou o caminhão simples: cavalo e carreta, com pneus, manutenção e capital investido nos dois. A Tabela B remunera quem entrega só o cavalo mecânico. A Resolução nº 6.076/2026, que alterou a metodologia, deixou explícito que certos custos ligados ao implemento são excluídos quando a operação é só de tração.

O detalhe que confunde: a Tabela B não é aplicada pelo número de eixos do cavalo. O § 2º do art. 5º da Resolução nº 5.867/2020 manda usar os coeficientes da Tabela B e o número de eixos da composição veicular. Um cavalo 6x4 com carreta de três eixos entra na coluna de 6 eixos, mesmo que só três desses eixos pertençam ao contratado.

2. A conta do caso

Parcela (carga geral, 6 eixos, 600 km) Tabela A Tabela B Diferença
CCD (R$/km) 7,5347 6,7863 0,7484
Deslocamento R$ 4.520,82 R$ 4.071,78 R$ 449,04
Carga e descarga R$ 671,93 R$ 608,99 R$ 62,94
Piso R$ 5.192,75 R$ 4.680,77 R$ 511,98
Piso por km R$ 8,65 R$ 7,80 R$ 0,85

A carreta própria "economiza" para o contratante R$ 0,75 por km rodado e R$ 62,94 por viagem. Isso não significa que a carreta seja de graça: os pneus, a manutenção, o licenciamento e a depreciação do semirreboque passam a ser custo de quem é dono dela.

Tabela AR$ 5.192,75Tabela BR$ 4.680,77
Figura 1. Piso de carga geral, 600 km, 6 eixos: composição completa (A) contra só o cavalo mecânico (B).

3. A diferença por número de eixos

A Tabela B só tem coeficientes a partir de 4 eixos, o que faz sentido: abaixo disso não há composição com cavalo e reboque separáveis. Para carga geral, a diferença cresce com o tamanho do conjunto, porque bitrens e rodotrens têm mais implemento por trás da tração.

Eixos da composição Tabela A Tabela B Redução Redução (%)
4 R$ 4.139,66 R$ 3.745,68 R$ 393,98 9,5%
5 R$ 4.754,60 R$ 4.248,62 R$ 505,98 10,6%
6 R$ 5.192,75 R$ 4.680,77 R$ 511,98 9,9%
7 R$ 5.795,28 R$ 5.051,17 R$ 744,11 12,8%
9 R$ 6.550,16 R$ 5.595,96 R$ 954,20 14,6%

Carga geral, 600 km, sem pedágio. No rodotrem de 9 eixos, quem fornece os dois semirreboques e o dolly e contrata só o cavalo paga R$ 954,20 a menos de piso nesta distância.

4. E por tipo de carga

Na Tabela B, carga geral, granel sólido, conteinerizada e neogranel têm os mesmos coeficientes. Faz sentido: o cavalo é o mesmo, o que muda de uma carga para outra é sobretudo o implemento. Mesmo assim, granel líquido, frigorificada e perigosa mantêm valores próprios.

Tipo de carga (6 eixos, 600 km) Tabela A Tabela B Redução (%)
Carga geral R$ 5.192,75 R$ 4.680,77 9,9%
Granel sólido R$ 5.218,47 R$ 4.680,77 10,3%
Granel líquido R$ 5.352,04 R$ 4.719,83 11,8%
Frigorificada ou aquecida R$ 6.107,01 R$ 5.436,64 11,0%
Perigosa (carga geral) R$ 5.551,21 R$ 5.039,23 9,2%

Entre os cinco tipos, o granel líquido é o que mais cai ao trocar de tabela, 11,8%, o que combina com o peso de um semirreboque-tanque no custo do conjunto. A carga perigosa é a que menos cai, 9,2%: na Tabela B ela continua com coeficientes acima dos da carga geral, ou seja, a metodologia mantém um adicional para a operação de perigosos mesmo quando só o cavalo é contratado.

5. A distância muda a vantagem?

Pouco, em termos percentuais. Em 200 km, a Tabela B fica 9,8% abaixo da A (R$ 1.966,25 contra R$ 2.178,87). Em 1.500 km, 9,9% abaixo (R$ 10.788,44 contra R$ 11.973,98). Em reais, a diferença cresce com a distância, porque a maior parte dela está no CCD.

03.0006.0009.00012.00015.00002505007501.0001.2501.500Distância (km)Piso (R$)Caso: 600 kmTabela ATabela B
Figura 2. Piso de carga geral com 6 eixos pelas Tabelas A e B, conforme a distância.
Semirreboque prancha longo com vários eixos estacionado
Figura 3. Semirreboque parado: ter carreta própria muda a tabela que vale e o custo de quem contrata só o cavalo. Foto: Forest Plum / Unsplash

6. Ter carreta própria compensa? A conta do lado do contratante

A diferença de piso é o teto do que a transportadora pode economizar ao fornecer o implemento. Com 10 viagens por mês como a do caso, a soma das diferenças chega a R$ 5.119,80 por mês, para 6.000 km rodados com carga.

Dividido pelos quilômetros, isso dá R$ 0,85 por km. É esse o número a comparar com o custo real do semirreboque: pneus (três eixos, seis ou doze pneus conforme o rodado), lonas e freios, licenciamento, seguro, rastreamento e depreciação, além do tempo parado no pátio. Se o custo por km da carreta própria passa desse valor, a economia de piso não paga o implemento, e contratar o conjunto completo pela Tabela A sai mais barato no fim do mês.

Há também ganhos que não aparecem no piso: carreta padronizada para o cliente, controle de higienização em cargas sensíveis e possibilidade de deixar o semirreboque carregando enquanto o cavalo roda outra perna.

7. E do lado de quem fornece o cavalo

Para o autônomo, a Tabela B não é desconto: é a remuneração do que ele efetivamente põe na estrada. Mesmo assim, vale conferir quanto do piso já está comprometido com combustível. Com consumo de 2,4 km/l (premissa para cavalo 6x4 tracionando carreta de três eixos carregada) e diesel S10 a R$ 7,33 por litro, preço de referência adotado pela Portaria SUROC nº 22/2026 para a semana de 20 a 26 de setembro de 2026, a ida consome 250 litros, ou R$ 1.832,50. Isso é 39% do piso da Tabela B.

O que sobra precisa cobrir pneus do cavalo, manutenção, salário ou pró-labore do motorista, seguro, parcela do financiamento e a volta. Quem aceita trabalhar pelo piso cravado, sem carga de retorno, dificilmente fecha a conta.

8. Quando a Tabela B é a correta, e quando não é

É a correta quando o contrato e a prática mostram que o contratado só fornece o cavalo e o motorista: a carreta pertence ao contratante, a um operador logístico ou a terceiro com quem o contratado não tem relação. É o modelo de pátios de troca de carreta, de operações com semirreboque dedicado ao cliente e de transportadoras que mantêm frota de implementos maior que a de cavalos.

Não é a correta quando o autônomo traz o próprio conjunto, mesmo que a carreta esteja registrada em nome de parente ou de outra empresa sua. Também não cabe quando o contratante empresta uma carreta só no papel para enquadrar a operação na tabela mais barata. A diferença de cerca de 10% no piso não compensa o risco: pagar abaixo do piso aplicável sujeita o contratante a indenizar o transportador em até duas vezes o valor do piso da operação, além das sanções da ANTT.

9. O que deixar registrado

Perguntas frequentes

Contratando só o cavalo, uso a coluna de 3 eixos?

Não. A Tabela B usa o número de eixos da composição inteira. Um cavalo 6x4 com carreta de três eixos entra na coluna de 6 eixos: R$ 4.680,77 para 600 km de carga geral.

Quanto a Tabela B economiza por km?

Para carga geral com 6 eixos, o CCD cai de R$ 7,5347 para R$ 6,7863, ou R$ 0,75 a menos por km, além de R$ 62,94 a menos no CC.

Existe Tabela B para caminhão truck?

Não. Os coeficientes da Tabela B começam em 4 eixos. Caminhões simples de 2 e 3 eixos usam a Tabela A.

A Tabela B vale para frigorificada?

Vale, com coeficientes próprios. Em 600 km com 6 eixos, o piso só do cavalo é R$ 5.436,64, contra R$ 6.107,01 do conjunto completo.

E se a operação for de alto desempenho?

Aí entram as Tabelas C (composição completa) e D (só tração), para frota dedicada com carga e descarga em até três horas, com CC bem menor.

Na calculadora de frete mínimo, escolha "apenas unidade de tração" para ver o piso pela Tabela B com a sua distância e os eixos da composição.

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Fontes e referências

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