Frete de São Paulo a Porto Alegre: piso e jornada
São cerca de 1.120 km pela Régis Bittencourt e pela BR-101, uma das rotas longas mais rodadas do país. A conta mostra o piso da ANTT, o diesel, quantos dias a viagem leva com a lei do motorista e quanto cobrar sem carga de volta.
O caso: uma indústria da Grande São Paulo quer mandar carga geral paletizada para um centro de distribuição em Porto Alegre (RS), cerca de 1.120 km pela BR-116 até Curitiba e pela BR-376 e BR-101 até o Rio Grande do Sul. O transportador tem uma carreta 3S3 (6 eixos). Qual é o frete mínimo? Quantos dias leva a viagem dentro da lei? E quanto cobrar se não houver carga de volta?
Resposta curta: pela tabela A da ANTT, o piso da carreta de 6 eixos é de R$ 9.110,79, sem pedágio, que é pago à parte pelo embarcador. Com média de 70 km/h e teto de 10 horas de direção por dia, a ida ocupa 2 dia(s) de calendário. Com as premissas deste guia, o custo da ida fica em R$ 5.498,64; com volta vazia, R$ 10.190,45. Sem carga de retorno, o preço com 12% de margem chega a R$ 11.413,30, bem acima do piso.
As premissas da conta
São Paulo–Porto Alegre é uma das rotas longas mais rodadas do país, com serra (a descida da BR-376 para o litoral de Santa Catarina), trechos urbanos pesados em Curitiba, Joinville e Florianópolis e pedágio em quase toda a extensão. A conta usa estes números:
| Premissa | Valor usado | De onde vem |
|---|---|---|
| Distância São Paulo–Porto Alegre | 1.120 km | Rota BR-116, BR-376, BR-101 e BR-290, aproximada |
| Tipo de carga | Carga geral | Paletes de mercadoria seca |
| Diesel S10 em São Paulo | R$ 7,23/l | ANP, capitais, semana de 18 a 24/10/2026 |
| Diesel S10 em Curitiba | R$ 7,26/l | ANP, capitais, semana de 18 a 24/10/2026 |
| Diesel S10 em Porto Alegre | R$ 6,98/l | ANP, capitais, semana de 18 a 24/10/2026 |
| Consumo carregado (truck / 2S3 / 3S3) | 3,5 / 2,6 / 2,5 km/l | Premissa da redação |
| Consumo da 3S3 vazia | 3,1 km/l | Premissa da redação |
| Velocidade média | 70 km/h | Premissa da redação, sem contar paradas |
O piso usa a tabela da ANTT atualizada pela Portaria SUROC nº 22/2026, em vigor desde 30 de setembro de 2026, com diesel de referência a R$ 7,33 o litro. A média nacional do S10 na semana de 18 a 24 de outubro foi de R$ 7,32, segundo a ANP. Se a coleta for no interior ou a entrega na Serra Gaúcha, troque a distância na calculadora de frete mínimo.
O frete mínimo por veículo
O piso da ANTT soma o deslocamento (valor por km vezes a distância) e a carga e descarga (valor fixo por viagem). Em viagem longa, o deslocamento é quase todo o valor:
| Veículo | Eixos | Deslocamento | Carga e descarga | Piso da viagem | Por km |
|---|---|---|---|---|---|
| Truck | 3 | R$ 5.843,82 | R$ 541,86 | R$ 6.385,68 | R$ 5,70 |
| Carreta 2S3 | 5 | R$ 7.647,81 | R$ 657,56 | R$ 8.305,37 | R$ 7,42 |
| Carreta 3S3 | 6 | R$ 8.438,86 | R$ 671,93 | R$ 9.110,79 | R$ 8,13 |
| Carreta 3S3 frigorificada | 6 | R$ 9.958,03 | R$ 772,35 | R$ 10.730,38 | R$ 9,58 |
Contratar abaixo desses valores é ilegal pela Lei 13.703/2018. Desde a Lei 15.485/2026, o frete abaixo do piso não gera CIOT, e a ANTT pode suspender o RNTRC de quem insiste na prática.
Quanto fica de diesel e de ARLA 32
Abastecendo em São Paulo, o diesel da ida carregada fica assim:
| Veículo | Litros | Diesel da ida | Sobra do piso depois do diesel |
|---|---|---|---|
| Truck | 320 l | R$ 2.313,60 | R$ 4.072,08 |
| Carreta 2S3 | 431 l | R$ 3.114,46 | R$ 5.190,91 |
| Carreta 3S3 | 448 l | R$ 3.239,04 | R$ 5.871,75 |
A carreta 3S3 ainda consome cerca de 22 litros de ARLA 32 na ida, considerando 5% do diesel a R$ 4,00 o litro: mais R$ 89,60.
A diferença de preço entre as capitais ajuda na volta. Na semana de 18 a 24 de outubro, o S10 em Porto Alegre estava R$ 0,25 mais barato que em São Paulo. Na volta vazia, a 3S3 gasta cerca de 361 litros: encher o tanque em Porto Alegre em vez de São Paulo economiza uns R$ 90,32 por viagem. Os preços mudam toda semana, e o tanque precisa ter capacidade para a volta inteira; confira o levantamento da ANP antes de decidir.
Quantos dias leva a viagem dentro da lei
A distância não cabe num dia. O artigo 67-C do CTB, na redação da Lei 13.103/2015, limita a direção contínua a 5 horas e meia, exige 30 minutos de descanso a cada 6 horas ao volante e 11 horas de descanso a cada 24 horas. Para o motorista empregado, a CLT (art. 235-C) fixa 8 horas de jornada, com até 2 horas extras, ou até 4 com convenção coletiva.
| Cenário | Horas de direção | Paradas e descansos | Chegada | Dias de calendário |
|---|---|---|---|---|
| Saída às 6h, teto de 10 h de direção por dia | 16 h | 2 paradas, 1 descanso(s) de 11 h | 11:00 | 2 |
| Saída às 6h, teto de 8 h de direção por dia | 16 h | 2 paradas, 1 descanso(s) de 11 h | 11:00 | 2 |
A conta da calculadora de jornada não inclui a fila de carga em São Paulo, o trânsito em Curitiba e na Grande Florianópolis, nem a descarga no CD. Na prática, a viagem redonda com volta vazia ocupa o caminhão por quatro ou cinco dias, e cada dia parado custa parcela, seguro e salário. O tempo de espera para carregar e descarregar conta como trabalho para o empregado, depois do julgamento do STF na ADI 5322; se a espera passar de 5 horas, cabe a estadia prevista na Lei 11.442/2007.
O custo completo da carreta, ida e volta
O piso da ANTT cobre a ida. Se a carreta voltar vazia, quem paga a volta é o próprio transportador. Usando a calculadora de custo por km com parcela de R$ 9.000, seguro de R$ 800 por mês, IPVA e licenciamento de R$ 6.000 por ano, salário de R$ 5.000, rastreador de R$ 250, R$ 500 de outros fixos e 12.000 km por mês:
| Parte da conta | Valor |
|---|---|
| Custo total por km carregado | R$ 4,91 |
| Custo da ida (1.120 km) | R$ 5.498,64 |
| Custo da volta vazia (fixo, diesel em Porto Alegre e desgaste) | R$ 4.691,81 |
| Custo da ida e volta | R$ 10.190,45 |
| Piso da ANTT da ida | R$ 9.110,79 |
| Preço com 12% de margem, com carga de retorno garantida | R$ 9.110,79 |
| Preço com 12% de margem, sem carga de retorno | R$ 11.413,30 |
Quando há carga de volta, a conta da ida só precisa cobrir a ida, e o preço fica perto do piso ou acima dele, o que for maior. Sem retorno, a ida tem de pagar as duas pernas. Por isso o frete para o Sul costuma ser negociado junto com a carga de volta: o Rio Grande do Sul manda para São Paulo alimentos, calçados, móveis e produtos da indústria metalmecânica, e quem fecha o retorno antes de sair consegue cobrar menos na ida sem perder dinheiro.
Pedágio fica fora do frete
O pedágio da rota, cobrado por eixo na Régis Bittencourt, na BR-376, na BR-101 e na freeway, não entra no piso da ANTT. Pela Lei 10.209/2001, o embarcador antecipa o vale-pedágio, à parte do frete, e não pode descontá-lo do valor combinado. Use a calculadora de pedágios para estimar o vale da viagem com o número de eixos certo e, na volta vazia, levante os eixos: pelo artigo 17 da Lei 13.103/2015, eixo suspenso de caminhão vazio não paga.
Checklist antes de fechar o frete
- Meça a rota de caminhão entre os endereços de coleta e entrega, não a distância entre as capitais.
- Calcule o piso pela tabela A da ANTT com o número de eixos e o tipo de carga certos.
- Some o custo da volta se não houver carga de retorno contratada.
- Exija o vale-pedágio à parte e confira o CIOT antes de sair.
- Planeje os pernoites em pontos de parada e descanso e combine o horário de descarga no CD.
- Verifique o preço do diesel na ANP da semana para decidir onde abastecer na volta.
Erros comuns
- Prometer entrega no dia seguinte. Com descanso de 11 horas e paradas obrigatórias, a ida dentro da lei não cabe em 24 horas.
- Cobrar só o piso com volta vazia. O piso cobre a ida; a volta sai do bolso do transportador.
- Pôr o pedágio dentro do frete. O vale-pedágio é obrigação do embarcador e vem separado.
- Esquecer os dias parados. Parcela, seguro e salário correm enquanto o caminhão espera carga ou descarga.
- Usar o preço do diesel de um mês atrás. O S10 mudou várias semanas seguidas em 2026; use o levantamento mais recente.
Perguntas frequentes
Qual é o frete mínimo de São Paulo a Porto Alegre?
Para carga geral a 1.120 km, a tabela A da ANTT dá R$ 6.385,68 no truck de 3 eixos, R$ 8.305,37 na carreta de 5 eixos e R$ 9.110,79 na carreta de 6 eixos, sem pedágio.
Quanto tempo o caminhão leva de São Paulo a Porto Alegre?
Com média de 70 km/h, são 16 h de direção. Com teto de 10 horas por dia e as paradas do CTB, saindo às 6h, a chegada fica para 11:00, em 2 dia(s) de calendário, sem contar trânsito e descarga.
Quanto diesel uma carreta gasta de São Paulo a Porto Alegre?
A 2,5 km/l carregada, cerca de 448 litros, ou R$ 3.239,04 com o S10 a R$ 7,23 em São Paulo (ANP, 18 a 24/10/2026).
Vale a pena abastecer em Porto Alegre na volta?
Na semana de 18 a 24 de outubro, sim: o S10 estava R$ 0,25 mais barato na capital gaúcha, o que dá cerca de R$ 90,32 na volta vazia da carreta. Confira o levantamento da semana antes de decidir.
O pedágio entra no frete mínimo?
Não. O piso da ANTT não inclui pedágio. O embarcador paga o vale-pedágio à parte, pela Lei 10.209/2001.
Quanto cobrar se a carreta voltar vazia?
Com as premissas deste guia, o custo da ida e da volta vazia soma R$ 10.190,45. Com 12% de margem, o preço da ida fica em R$ 11.413,30, contra o piso de R$ 9.110,79.
Leia também: Frete de São Paulo ao Rio: piso, diesel e bate-volta
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Fontes e referências
- ANTT atualiza coeficientes do Piso Mínimo do Frete e divulga novo preço de referência do diesel (Portaria SUROC nº 22/2026) — Coeficientes em vigor desde 30/09/2026, diesel de referência a R$ 7,33/l.
- ANP – Síntese semanal dos preços dos combustíveis nº 43/2026 — Semana de 18 a 24/10/2026: S10 a R$ 7,32 (média nacional), R$ 7,23 em São Paulo, R$ 7,26 em Curitiba e R$ 6,98 em Porto Alegre.
- Lei nº 13.103/2015 (Lei do Motorista) – Planalto — CTB art. 67-C (5h30 contínuas, 30 min a cada 6 h, 11 h de descanso), CLT art. 235-C e art. 17 (eixo suspenso).
- Lei nº 13.703/2018 – Política Nacional de Pisos Mínimos do Transporte Rodoviário de Cargas — Piso mínimo obrigatório do frete.
- Lei nº 10.209/2001 (Vale-Pedágio obrigatório) — Pedágio antecipado pelo embarcador, à parte do frete.
- Lei nº 15.485, de 5 de agosto de 2026 — CIOT prévio; frete abaixo do piso não gera CIOT.
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