Frete de contêiner Santos–Campinas: piso e custo
Na carga conteinerizada, a viagem curta engana: são só 170 km, mas o caminhão gasta o dia entre serra, terminal e cliente. Comparamos o custo real do ciclo com o piso da ANTT, que já inclui a volta vazia.
O caso: uma transportadora de contêineres leva um contêiner de 40 pés cheio do Porto de Santos a um importador em Campinas, a cerca de 170 km (distância aproximada), e devolve a caixa vazia no terminal. Conjunto de 6 eixos, composição completa (Tabela A). O ciclo completo tem 340 km e, na prática, ocupa o caminhão o dia inteiro.
Resposta curta: o piso da ANTT com o retorno vazio obrigatório é R$ 3.109,55, mais o pedágio. Com as premissas deste guia, o ciclo custa à transportadora R$ 2.879,25, dos quais R$ 1.041,25 de diesel, R$ 600,00 de pedágio (que o contratante deve pagar à parte) e R$ 1.000,00 de custo fixo do dia. Descontado o pedágio, a margem sobre o piso é de R$ 830,30, mas desaparece se a fila no terminal custar um segundo dia.
1. Por que a viagem curta é diferente
Numa rota de mil quilômetros, o custo é dominado pelo diesel e pelos pneus; o tempo parado dilui-se nos dias de estrada. No contêiner de porto, a lógica se inverte. São poucos quilômetros, mas o conjunto sobe a serra carregado, enfrenta trânsito na Baixada e no planalto, espera janela no terminal para retirar a caixa cheia e outra vez para devolver a vazia. O que pesa é a hora parada, e ela é paga pelo custo fixo: parcela, seguro, salário do motorista.
A Resolução ANTT nº 5.867/2020 reconhece parte disso. A carga conteinerizada, definida como a carga transportada no interior de contêineres, tem retorno vazio obrigatório: 92% do CCD da composição multiplicado pela distância de volta. É essa parcela que diferencia o contêiner da carga geral numa rota curta.
2. O piso do ciclo
Com os coeficientes da Portaria SUROC nº 22/2026, a carga conteinerizada de 6 eixos tem CCD de R$ 7,4986 por km e CC de R$ 662,01. Para 170 km, o deslocamento da ida dá R$ 1.274,76, o retorno vazio soma R$ 1.172,78 e o piso total chega a R$ 3.109,55, ou R$ 9,15 por km rodado no ciclo. O pedágio de ida e volta é acrescido a esse valor.
| Parcela (6 eixos, contêiner) | Cálculo | Valor |
|---|---|---|
| Deslocamento da ida | 170 km × R$ 7,4986 | R$ 1.274,76 |
| Carga e descarga | valor fixo | R$ 662,01 |
| Retorno vazio | 170 km × 0,92 × R$ 7,4986 | R$ 1.172,78 |
| Piso do ciclo | R$ 3.109,55 |
Um detalhe importa na viagem curta: o CC de R$ 662,01 representa 21% do piso. Ele é a parte que remunera as operações de carga e descarga, justamente as que mais demoram nessa rota.
20 ou 40 pés? A tabela não distingue o tamanho da caixa. Um contêiner de 20 pés e um de 40 pés têm o mesmo piso, desde que a composição tenha os mesmos 6 eixos. O que muda é o peso: caixas de 20 pés com carga densa, como chapas ou sacaria, podem pesar quase tanto quanto uma de 40 pés, e a balança é responsabilidade do transportador.
3. O custo real do dia
Premissas de exemplo, a trocar pelos números de cada empresa:
- Consumo: 2,4 km/l no ciclo, média entre a subida da serra carregado e a descida vazio.
- Diesel: S10 a R$ 7,35/l, média nacional da ANP na semana de 27 de setembro a 3 de outubro de 2026 (na capital paulista, a mesma pesquisa apontou R$ 7,23/l).
- Pedágio: R$ 600 no ciclo para 6 eixos, valor de exemplo; confira as tarifas vigentes das praças do seu trajeto.
- Pneus e manutenção: R$ 0,70 por km.
- Custo fixo: R$ 1.000 por dia trabalhado, resultado de cerca de R$ 22 mil mensais de parcela, seguro, motorista com encargos e rastreamento, divididos por 22 dias.
| Item do ciclo (340 km) | Um dia | Se a fila levar dois dias |
|---|---|---|
| Diesel (142 l) | R$ 1.041,25 | R$ 1.041,25 |
| Pedágio (exemplo) | R$ 600,00 | R$ 600,00 |
| Pneus e manutenção | R$ 238,00 | R$ 238,00 |
| Custo fixo do caminhão | R$ 1.000,00 | R$ 2.000,00 |
| Custo total | R$ 2.879,25 | R$ 3.879,25 |
| Piso ANTT + pedágio | R$ 3.709,55 | R$ 3.709,55 |
| Resultado | R$ 830,30 | −R$ 169,70 |
O diesel, item que mais preocupa o motorista de estrada, responde aqui por 36% do custo, praticamente empatado com o custo fixo do dia. A diferença é que o diesel só sobe se o caminhão rodar mais, enquanto o fixo cresce a cada dia parado: um dia extra de espera custa quase o mesmo que todo o combustível do ciclo e transforma a margem em prejuízo.
4. Quantos ciclos cabem num dia
Na serra e no trânsito metropolitano, médias de 40 a 50 km/h são realistas. A 45 km/h, cada sentido leva cerca de 3 h 47 min ao volante, 7 h 33 min no ciclo. Some a retirada no terminal, a descarga no cliente e a devolução da caixa vazia, e o dia se completa. A Lei nº 13.103/2015 limita a direção contínua a 5 h 30 min e exige descanso de 11 horas a cada 24, de modo que dois ciclos para Campinas no mesmo dia, com o mesmo motorista, não cabem na jornada.
Para a capital paulista, a cerca de 80 km, a conta é outra: 3 h 33 min de direção por ciclo, e dois ciclos por dia se tornam possíveis quando os agendamentos colaboram. Na rota mais curta, portanto, o resultado do mês depende menos do frete de cada viagem e mais de quantas viagens o terminal deixa fazer por dia.
5. Piso e custo em outras rotas a partir de Santos
Com as mesmas premissas (um dia de custo fixo por ciclo, pedágio fora da conta, distâncias aproximadas):
| Rota | Ciclo | Piso com retorno | Custo do ciclo sem pedágio | Diferença |
|---|---|---|---|---|
| Santos → São Paulo (capital) | 160 km | R$ 1.813,79 | R$ 1.602,00 | R$ 211,79 |
| Santos → Jundiaí | 280 km | R$ 2.677,63 | R$ 2.053,50 | R$ 624,13 |
| Santos → Campinas | 340 km | R$ 3.109,55 | R$ 2.279,25 | R$ 830,30 |
| Santos → Piracicaba | 480 km | R$ 4.117,36 | R$ 2.806,00 | R$ 1.311,36 |
Na rota mais curta, o piso deixa pouca folga sobre um dia de custo fixo, a menos que o caminhão faça dois ciclos. Quanto mais longe, mais o piso se afasta do custo, desde que o ciclo continue cabendo num dia.
6. A fila no terminal tem preço
A Lei nº 11.442/2007 fixa em 5 horas o prazo máximo para carga e descarga. Passado esse prazo, o transportador tem direito a um valor por tonelada e por hora, calculado sobre a capacidade total do veículo. O texto da lei traz R$ 1,38 por tonelada/hora, valor que deve ser corrigido anualmente pelo INPC; portanto, o atualizado é maior. Com uma capacidade de exemplo de 30 t, cada hora além do prazo vale ao menos R$ 41,40.
Uma espera de 9 horas no terminal gera pelo menos R$ 165,60 de estadia; uma de 14 horas, R$ 372,60. É pouco perto de um dia de custo fixo (R$ 1.000,00), o que explica por que muitas transportadoras de contêiner negociam diárias contratuais acima do mínimo legal. Para cobrar qualquer uma delas, o horário de chegada precisa estar registrado.
7. Tabela A ou alto desempenho
Se o contrato especificar uma operação de alto desempenho, nos termos da Resolução 5.867/2020, com carga e descarga somando até três horas sob responsabilidade do contratante, vale a Tabela C. Para o mesmo ciclo, o piso com retorno cai para R$ 2.343,92, R$ 765,64 a menos. Com o custo de exemplo de R$ 2.279,25 sem pedágio, sobra pouco. Aceitar a Tabela C só faz sentido quando a agilidade prometida existe de fato e permite mais de um ciclo por dia.
8. Checklist antes de aceitar
- Retorno vazio no CIOT. O valor registrado deve ser o piso completo, R$ 3.109,55, e não só o da ida.
- Pedágio do ciclo inteiro. Ida e volta, pagos por vale-pedágio.
- Local de devolução da caixa. Terminal no porto ou depósito no planalto mudam a distância de volta.
- Janela agendada por escrito. Sem horário marcado, não há como provar a espera.
- Tabela correta. Alto desempenho exige condições contratuais; sem elas, Tabela A.
- Peso da caixa conferido. Contêiner pesado demais para o conjunto é problema do transportador na balança.
Perguntas frequentes
Qual o frete mínimo de um contêiner de Santos a Campinas?
Com 6 eixos e cerca de 170 km, R$ 3.109,55 incluindo o retorno vazio obrigatório, mais pedágio.
Quanto custa o ciclo para a transportadora?
No exemplo, R$ 2.879,25 com pedágio, ou R$ 2.279,25 sem ele, considerando um dia de custo fixo.
O diesel é o maior custo?
Por pouco. São R$ 1.041,25 de diesel contra R$ 1.000,00 de custo fixo do dia. Mas um segundo dia de fila acrescenta mais R$ 1.000,00 sem rodar um quilômetro.
Quem paga o pedágio do retorno vazio?
O contratante. O pedágio não integra o piso e deve ser somado a ele, inclusive o das praças da volta com a caixa vazia. No exemplo, os R$ 600,00 do ciclo elevam o valor mínimo a receber para R$ 3.709,55.
Quanto vale a estadia de uma fila de 9 horas?
Pelo valor escrito na lei, ao menos R$ 165,60 para 30 t de capacidade; o valor corrigido pelo INPC é maior.
Vale a pena contratar pela Tabela C?
Só se a operação realmente permitir dois ciclos por dia. Com um ciclo, o piso de R$ 2.343,92 fica R$ 64,67 acima do custo do exemplo sem pedágio.
Na calculadora de custo da viagem, informe a distância do ciclo, o pedágio e os custos do dia para comparar com o frete oferecido.
Faça a conta: Custo da viagem →
Fontes e referências
- Resolução ANTT nº 5.867/2020 — Definição de carga conteinerizada, retorno vazio obrigatório e operação de alto desempenho (Tabela C)
- Portaria SUROC nº 22/2026 (ANTT) — Coeficientes de carga conteinerizada com 6 eixos nas Tabelas A e C, vigentes desde 30/09/2026
- Lei nº 11.442/2007 — Prazo de 5 horas para carga e descarga e estadia por tonelada/hora sobre a capacidade do veículo (art. 11)
- Lei nº 13.103/2015 (Lei do Motorista) — Jornada, direção contínua máxima e descanso, usados para estimar ciclos por dia
- ANP · Síntese semanal de preços, edição 40/2026 — Diesel S10 a R$ 7,35/l na média nacional e R$ 7,23/l na capital paulista, semana de 27/09 a 03/10/2026
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