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Peso por eixo: limites, tolerância e carga útil

Quanto cada eixo pode levar, como somar o limite da composição, o que a balança tolera e o que não tolera, e por que carregar abaixo do limite encarece a tonelada transportada.

Vista aérea de colheitadeiras descarregando grãos em reboques numa lavoura
Na carga a granel, o que entra na caçamba precisa caber no limite de cada eixo e no peso total da composição. Foto: Bernd 📷 Dittrich / Unsplash

O caso: carreta 3S3 graneleira (cavalo 6x2 com semirreboque de 3 eixos em tandem) com tara de 16,0 t, carregada com 33,5 t de soja para uma viagem de 500 km. A tara é uma premissa; a do seu conjunto está no documento do veículo e na balança.

Resposta curta: pela Resolução Contran 882/2021, o limite legal da 3S3 é de 48,5 t de peso bruto total combinado (6 t no eixo dianteiro, 17 t no tandem do cavalo e 25,5 t no tandem triplo). Com 16,0 t de tara, a carga útil legal é de 32,5 t. Os 33,5 t do caso somam 49,5 t: passam na balança, que tolera 5% (até 50,925 t), mas ficam 1,0 t acima do limite. Se a fiscalização for pelo peso da nota fiscal, não existe tolerância.

O que a lei chama de peso por eixo

O Código de Trânsito proíbe circular com peso acima do limite, e quem fixa os números é o Contran. A norma em vigor é a Resolução Contran nº 882, de 13 de dezembro de 2021, publicada no Diário Oficial em 24 de dezembro de 2021 e em vigor desde 3 de janeiro de 2022.

A regra geral está no artigo 2º: nenhum veículo pode passar do peso indicado pelo fabricante (PBT, PBTC, peso por eixo e capacidade máxima de tração do cavalo) nem do limite do Contran. Quando os dois são diferentes, vale o menor. Na prática, são três contas que precisam fechar ao mesmo tempo:

Os limites por eixo estão no artigo 6º:

Eixo ou conjunto (art. 6º) Limite
Eixo isolado com 2 pneus (rodagem simples) 6 t
Eixo isolado com 4 pneus (rodagem dupla) 10 t
2 eixos direcionais, 2 pneus cada, distância mínima de 1,20 m 12 t
2 eixos em tandem, distância entre 1,20 m e 2,40 m 17 t
2 eixos não em tandem, distância entre 1,20 m e 2,40 m 15 t
3 eixos em tandem (só semirreboque), distância entre 1,20 m e 2,40 m 25,5 t
2 eixos, um com 4 e outro com 2 pneus, suspensão especial, até 1,20 m 9 t
O mesmo conjunto, distância entre 1,20 m e 2,40 m 13,5 t

O artigo 8º acrescenta uma condição: esses limites só valem se os pneus de um mesmo conjunto tiverem a mesma rodagem e o mesmo diâmetro. Para caminhões a gás, biometano, híbridos, elétricos ou a hidrogênio, a Resolução Contran 1.015/2024 elevou o eixo dianteiro de 2 pneus para 7 t e permitiu 1 t a mais no PBT ou PBTC.

Do eixo à composição: o limite de cada configuração

Para saber o máximo de uma composição, some os limites dos seus eixos e confira o teto de PBTC do inciso I do artigo 6º, que depende do tipo de combinação e do comprimento. Para as configurações mais comuns, com conjuntos em tandem:

Configuração Eixos somados Limite pela soma dos eixos
Toco (4x2) 6 + 10 16,0 t
Truck (6x2) 6 + 17 23,0 t
Carreta 2S3 6 + 10 + 25,5 41,5 t
Carreta 3S2 6 + 17 + 17 40,0 t
Carreta 3S3 6 + 17 + 25,5 48,5 t
Bitrem 3S2S2 (7 eixos) 6 + 17 + 17 + 17 57,0 t

No bitrem de 7 eixos, a soma bate exatamente no teto de 57 t que a resolução fixa para combinações com mais de duas unidades. Esse teto exige requisitos cumulativos: no máximo 7 eixos, comprimento entre 17,5 m e 19,8 m, caminhão-trator como unidade tratora, freios conjugados e engates conforme as normas técnicas. Composições maiores, como o rodotrem de 9 eixos, dependem de autorização específica e ficam fora desta conta.

Toco16,0 tTruck23,0 tCarreta 3S240,0 tCarreta 2S341,5 tCarreta 3S348,5 tBitrem 7 eixos57,0 t
Figura 1. Limite de peso bruto pela soma dos limites por eixo da Resolução Contran 882/2021, com conjuntos em tandem.

Do limite, tire a tara para chegar à carga útil. Na 3S3 do caso, 48,5 t menos 16,0 t de tara deixam 32,5 t para a carga. Um implemento mais leve aumenta a carga útil; um mais pesado reduz, sem mudar o limite legal.

Vista lateral de um cavalo mecânico com semirreboque, mostrando os conjuntos de eixos
Figura 2. O limite da composição é a soma dos limites de cada eixo ou conjunto, respeitado o teto de PBTC e o limite do fabricante. Foto: Arlind Photography / Unsplash

Tolerância da balança: o que ela aceita e o que não aceita

A tolerância está na Lei 7.408/1985, com a redação dada pela Lei 14.229/2021, e é repetida no artigo 50 da Resolução 882:

Para a carreta 3S3 do caso, os números ficam assim:

Item da 3S3 Limite legal Com tolerância Margem
Eixo dianteiro (2 pneus) 6,0 t 6,750 t 0,750 t
Tandem do cavalo 17,0 t 19,125 t 2,125 t
Tandem triplo do semirreboque 25,5 t 28,688 t 3,188 t
PBTC 48,5 t 50,925 t 2,425 t

Quatro detalhes da resolução mudam a leitura dessa tabela:

  1. Até 50 t, a balança olha o total. Veículos e combinações com PBT ou PBTC regulamentar de até 50 t são fiscalizados só pelo peso total. Se passarem da tolerância do total, aí também são fiscalizados por eixo, e as penalidades se somam (art. 50, § 1º). A 3S3, com 48,5 t, está nesse grupo.
  2. Nota fiscal não tem tolerância. Quando a fiscalização usa o peso declarado no documento fiscal, a resolução não admite tolerância alguma (art. 49, § 3º). É o caso dos 33,5 t do exemplo: 49,5 t declarados contra 48,5 t de limite.
  3. A multa é sobre o que passa da tolerância. Pelo artigo 52, a multa incide só sobre o excesso acima dos 5%. Excesso por eixo, por sua vez, obriga a remanejar ou transbordar a carga.
  4. Seguir viagem sem transbordo. O artigo 55 deixa seguir sem remanejar a carga se o excesso em cada eixo for menor que 12,5% do limite aplicável (o menor entre o do Contran e o do fabricante). Essa margem não se soma à do artigo 50.

Tolerância existe para cobrir erro de balança e acomodação da carga, não para virar carga extra. Quem planeja o carregamento em cima dela perde a margem justamente quando a carga molhada, o tanque cheio ou um carregamento mal distribuído empurram o peso para cima.

Quanto vale cada tonelada no piso da ANTT

O piso mínimo de frete da ANTT é calculado por viagem, a partir do tipo de carga, do número de eixos e da distância. O peso não entra na fórmula. Para granel sólido, 6 eixos e 500 km, o piso pela tabela A é de R$ 4.462,06, seja qual for a quantidade embarcada.

Por isso, dividir o frete pelas toneladas mostra o custo de viajar abaixo do limite:

Carga embarcada na 3S3 Piso da viagem Piso por tonelada
24 t R$ 4.462,06 R$ 185,92
27 t R$ 4.462,06 R$ 165,26
30 t R$ 4.462,06 R$ 148,74
32,5 t (limite com 16,0 t de tara) R$ 4.462,06 R$ 137,29
040801201602000612182430Carga embarcada (t)R$ por toneladaPiso por tonelada
Figura 3. Piso mínimo da ANTT (granel sólido, 6 eixos, 500 km, tabela A) dividido pela carga. O piso da viagem não muda com o peso.

A leitura vale para os dois lados. Para o embarcador que paga por tonelada, carregar até o limite legal reduz o custo unitário. Para o transportador, aceitar frete por tonelada com carga abaixo do limite pode deixar a viagem abaixo do piso: o que vale é o total da viagem. E carregar acima do limite não aumenta o piso, só a chance de multa e o desgaste de pneus, freios e suspensão.

Passo a passo antes de carregar

  1. Confira o CRLV e a plaqueta do fabricante. Anote PBT, PBTC, CMT e a tara de cada unidade. O limite que vale é o menor entre o fabricante e o Contran.
  2. Some os limites dos eixos da composição. Use a tabela da Resolução 882 e confira se os pneus de cada conjunto têm a mesma rodagem e o mesmo diâmetro.
  3. Calcule a carga útil. Limite menos tara. Considere tanque cheio, Arla 32, estepe e acessórios na tara real.
  4. Pese depois de carregar. Se a origem tem balança, peça o ticket por eixo, não só o total.
  5. Distribua a carga. Um PBTC dentro do limite não garante eixo dentro do limite. Carga concentrada na frente do semirreboque pesa no tandem do cavalo.
  6. Confira a nota fiscal. O peso declarado mais a tara não pode passar do limite, porque nesse caso não há tolerância.

Erros comuns

Perguntas frequentes

Qual a tolerância de peso por eixo na balança?

12,5% sobre o limite do eixo ou conjunto de eixos, pela Lei 7.408/1985 com a redação da Lei 14.229/2021. No peso bruto total, a tolerância é de 5%.

Quanto pode carregar uma carreta de 6 eixos (3S3)?

O limite legal é de 48,5 t de PBTC, pela soma de 6 t no dianteiro, 17 t no tandem do cavalo e 25,5 t no tandem triplo. A carga útil é esse valor menos a tara do conjunto: com 16,0 t de tara, 32,5 t.

A balança multa por eixo um caminhão de até 50 toneladas?

Não de início. Pela Resolução 882, veículos com PBT ou PBTC regulamentar de até 50 t são fiscalizados pelo peso total. Se passarem da tolerância do total, também são fiscalizados por eixo, com penalidades somadas.

Existe tolerância no peso da nota fiscal?

Não. Quando a fiscalização usa o peso declarado no documento fiscal, a Resolução 882 não admite tolerância.

Caminhão elétrico ou a gás pode levar mais peso?

Sim, no eixo dianteiro. A Resolução Contran 1.015/2024 fixou 7 t para o eixo dianteiro de 2 pneus desses veículos e permitiu 1 t a mais no PBT ou PBTC.

Carregar mais aumenta o piso mínimo do frete?

Não. O piso da ANTT depende do tipo de carga, do número de eixos e da distância. O peso embarcado não muda o valor da viagem.

Leia também: Tipos de caminhão: eixos, peso máximo e medidas

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Fontes e referências

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