Retorno vazio na tabela da ANTT: quando e quanto
No transporte de contêiner, o caminhão que leva a caixa do porto ao cliente quase sempre volta vazio, ou com a caixa vazia, para o terminal. A ANTT obriga a pagar essa volta. Veja quando a regra vale e quanto ela pesa.
O caso: um importador de Campinas contrata a retirada de um contêiner de 40 pés cheio no Porto de Santos. O transporte é feito por cavalo mecânico com carreta porta-contêiner, somando 6 eixos. Depois da entrega, o conjunto volta a Santos para devolver a caixa vazia no terminal. Distância aproximada: 170 km em cada sentido. Composição completa contratada (Tabela A).
Resposta curta: o piso da ida é R$ 1.936,77. Como se trata de contêiner, o retorno vazio é obrigatório e soma R$ 1.172,78, levando o piso total a R$ 3.109,55, sem pedágio. A volta acrescenta 61% ao valor da ida.
1. O que diz a regra
O retorno vazio aparece em dois pontos da Resolução ANTT nº 5.867/2020. O § 4º do art. 3º diz que o pagamento do retorno vazio é obrigatório em duas situações:
- no transporte de contêineres;
- no uso de veículos de frotas específicas, dedicadas ou fidelizadas, quando o motivo da exclusividade for sanitário ou uma certificação que limite o tipo de produto que o veículo pode levar.
O § 6º do art. 5º diz como calcular: 92% do coeficiente de custo de deslocamento (CCD) da composição, multiplicado pela distância de retorno fixada em contrato. Não entra um segundo coeficiente de carga e descarga, porque na volta não há operação de carregamento a remunerar.
A metodologia explica o número 92%: o fator foi derivado da diferença média de custo entre rodar carregado e rodar vazio, que muda a velocidade média e o consumo de combustível. Rodar sem carga custa menos, mas não custa pouco.
A base legal vem da própria Lei nº 13.703/2018. Entre os fatores que a metodologia dos pisos precisa considerar, a lei lista as características de modalidades específicas de transporte e as modalidades de contratação em frotas específicas, dedicadas ou fidelizadas. No contêiner, a lógica é física: a caixa pertence ao armador e tem de voltar ao terminal ou depósito indicado, e o conjunto porta-contêiner raramente encontra outra carga compatível no caminho de volta.
Fora dessas duas hipóteses, a volta sem carga é risco comercial do transportador. Ele pode e deve colocá-la no preço, mas o piso da ANTT não a exige.
2. A conta do caso Santos–Campinas
A carga conteinerizada com 6 eixos tem, na tabela em vigor desde 30 de setembro de 2026, CCD de R$ 7,4986/km e CC de R$ 662,01.
| Parcela | Cálculo | Valor |
|---|---|---|
| Deslocamento da ida | 170 km × R$ 7,4986 | R$ 1.274,76 |
| Carga e descarga | valor fixo | R$ 662,01 |
| Retorno vazio | 170 km × 0,92 × R$ 7,4986 | R$ 1.172,78 |
| Piso total | R$ 3.109,55 |
Dividido pelos 340 km rodados no ciclo completo, o piso equivale a R$ 9,15 por km. Se a conta fosse feita só sobre a ida, como alguns contratantes ainda fazem, o piso por km da ida seria R$ 18,29, um número que impressiona, mas que na verdade remunera ida e volta.
3. Quanto o retorno soma em outras rotas a partir de Santos
O retorno cresce na mesma proporção da distância, enquanto o CC fica fixo. Quanto mais longe o cliente, maior a fatia da volta no total. As distâncias abaixo são aproximadas e consideram que o contêiner vazio é devolvido em Santos.
| Rota (6 eixos, contêiner) | Distância aprox. | Piso da ida | Retorno vazio | Piso total |
|---|---|---|---|---|
| Santos → São Paulo (capital) | 80 km | R$ 1.261,90 | R$ 551,90 | R$ 1.813,79 |
| Santos → Sorocaba | 160 km | R$ 1.861,79 | R$ 1.103,79 | R$ 2.965,58 |
| Santos → Campinas | 170 km | R$ 1.936,77 | R$ 1.172,78 | R$ 3.109,55 |
| Santos → Ribeirão Preto | 420 km | R$ 3.811,42 | R$ 2.897,46 | R$ 6.708,88 |
| Santos → São José do Rio Preto | 520 km | R$ 4.561,28 | R$ 3.587,33 | R$ 8.148,61 |
Na viagem curta para a capital, o retorno representa 30% do piso total. Para São José do Rio Preto, chega a 44%.
4. Cinco ou seis eixos, Tabela A ou B
Muitos transportadores de contêiner trabalham com cavalo 4x2 e carreta de três eixos, somando 5 eixos. Nesse caso, Santos–Campinas fica em R$ 2.863,87 com o retorno incluído (R$ 1.062,11 só da volta).
Quando o terminal ou o operador logístico já tem a carreta porta-contêiner e contrata apenas o cavalo mecânico, aplica-se a Tabela B. Aqui há um detalhe: a resolução fala em 92% do CCD da composição, e por isso a calculadora do Movendo Brasil usa o CCD da Tabela A para a volta mesmo quando a ida é calculada pela Tabela B. No caso de 6 eixos, o piso só do cavalo fica em R$ 2.935,44, dos quais R$ 1.172,78 de retorno. Se o seu contrato adotar outra leitura, registre a base de cálculo por escrito.
5. A outra hipótese: frota dedicada por razão sanitária
A segunda situação de retorno obrigatório não depende do tipo de carga, e sim do motivo da exclusividade do veículo. A resolução fala em frotas específicas, dedicadas ou fidelizadas por razões sanitárias ou por certificações que delimitem o tipo de produto. Ela não traz uma lista de produtos; o enquadramento tem de estar sustentado no contrato e na exigência que impede o veículo de pegar outra carga na volta.
Um exemplo hipotético: um tanque de 6 eixos que, por exigência sanitária do contratante, só pode transportar um único produto alimentício líquido, numa rota de 300 km. Pelo granel líquido, o piso da ida é R$ 3.030,88. Com o retorno obrigatório de 300 km, a volta acrescenta R$ 2.135,47 e o total vai a R$ 5.166,35.
Uma frota apenas "fidelizada" por conveniência comercial, sem a restrição sanitária ou de certificação, não se encaixa nessa hipótese.
6. Quando a volta não tem a mesma distância da ida
A norma não presume que a volta seja igual à ida. Ela manda usar a distância de retorno fixada em contrato, e isso abre espaço para casos em que o caminhão não precisa voltar ao ponto de partida.
Imagine o mesmo contêiner de 40 pés entregue em Ribeirão Preto, a cerca de 420 km de Santos, mas com a devolução da caixa vazia autorizada pelo armador num depósito do interior a cerca de 100 km do cliente. A ida continua igual; o retorno vazio passa a ser calculado sobre 100 km.
| Cenário em Ribeirão Preto (6 eixos) | Retorno contratado | Retorno vazio | Piso total |
|---|---|---|---|
| Devolução em Santos | 420 km | R$ 2.897,46 | R$ 6.708,88 |
| Devolução em depósito no interior | 100 km | R$ 689,87 | R$ 4.501,29 |
A diferença, de R$ 2.207,59, mostra por que o local de devolução precisa constar do contrato desde a cotação. Se a instrução do armador muda depois do embarque e a caixa precisa voltar ao porto, o retorno contratado deve ser corrigido, e o CIOT também.
O fluxo de exportação inverte a lógica: a caixa vazia sai de um depósito, é estufada no exportador e desce cheia para o porto. A resolução não detalha como tratar o trecho percorrido com a caixa vazia nesse sentido. Até que a ANTT esclareça, o caminho mais seguro é descrever cada perna no contrato e registrar a base de cálculo usada.
7. Checklist do contrato e do CIOT
- Distância de retorno escrita no contrato. A norma usa a distância "fixada em contrato"; sem ela, a discussão vira briga de hodômetro.
- Local de devolução da caixa. Se o vazio é entregue num depósito de contêineres no planalto, e não no porto, a distância de retorno muda.
- Tipo de carga correto. A carga conteinerizada tem coeficientes próprios, que não existem para caminhão de 2 eixos.
- Valor do retorno separado no CIOT. O registro precisa refletir o piso total, não só o da ida.
- Pedágio da volta. O pedágio também se soma ao piso; inclua as praças do retorno no vale-pedágio.
- Justificativa da dedicação. Na frota dedicada por razão sanitária, guarde a exigência ou certificação que fundamenta o enquadramento.
8. Erros que aparecem com frequência
Confundir retorno vazio com frete de volta: se o caminhão volta com outra carga contratada, há uma nova operação com piso próprio, e não um retorno vazio.
Aplicar 92% sobre o piso total, em vez de sobre o CCD. No caso de Campinas, esse erro daria R$ 1.781,83 em vez de R$ 1.172,78, porque incluiria indevidamente o CC.
Esquecer que o contêiner vazio também é contêiner. A obrigação nasce do tipo de transporte, mesmo que a caixa volte sem mercadoria.
Perguntas frequentes
O retorno vazio é obrigatório em toda viagem?
Não. Só no transporte de contêiner e nas frotas dedicadas ou fidelizadas por razão sanitária ou certificação que restrinja o produto. Nos demais casos, é negociação comercial.
Como se calcula o retorno vazio?
Distância de retorno × 0,92 × CCD da composição. Para contêiner de 6 eixos: R$ 6,8987 por km de volta.
Quanto fica um contêiner de Santos a Ribeirão Preto?
Com cerca de 420 km por sentido e 6 eixos, o piso total é R$ 6.708,88, sendo R$ 2.897,46 de retorno vazio.
O retorno paga carga e descarga de novo?
Não. O CC de R$ 662,01 é cobrado uma vez, na operação de ida.
Com 5 eixos, quanto custa a volta de Campinas a Santos?
Pelo CCD de carga conteinerizada com 5 eixos, o retorno de 170 km soma R$ 1.062,11, e o piso total de ida e volta fica em R$ 2.863,87.
E se eu contratar só o cavalo?
Na Tabela B, o piso de Santos–Campinas com 6 eixos fica em R$ 2.935,44, com a volta calculada sobre o CCD da composição.
Na calculadora de frete mínimo, marque a opção de retorno vazio e informe a distância de volta para ver o piso completo da sua rota.
Fontes e referências
- Resolução ANTT nº 5.867/2020 — Art. 3º, § 4º (quando o retorno vazio é obrigatório) e art. 5º, § 6º (92% do CCD × distância de retorno)
- Portaria SUROC nº 22/2026 (ANTT) — Coeficientes de carga conteinerizada e de granel líquido vigentes desde 30/09/2026
- Resolução ANTT nº 6.076/2026 — Origem do fator de retorno na metodologia e definição de carga lotação
- Lei nº 13.703/2018 — Modalidades de frota dedicada ou fidelizada entre os fatores da metodologia e registro no CIOT
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