Tarifa de 25% dos EUA: o que fica de fora e o frete
Desde 22 de julho, a maior parte dos produtos brasileiros paga 25% a mais para entrar nos Estados Unidos, por decisão tomada com base na Seção 301 da lei de comércio americana. Em 30 de setembro, os dois governos combinaram criar um grupo de trabalho. Mostramos quais cargas que rodam de caminhão até os portos ficaram de fora.
O caso: uma transportadora de São Paulo leva contêineres de fábricas do interior até o porto de Santos. Parte dos clientes vende para os Estados Unidos e começou a reduzir embarques; outros, de café e suco de laranja, continuam. Ela quer entender quem paga a tarifa americana e quem ficou de fora.
Resposta curta: desde 22 de julho de 2026, os EUA cobram 25% a mais sobre os produtos do Brasil, com uma lista de exceções. Ficaram de fora, entre outros, carne bovina, café, minério de ferro, ferro-gusa, celulose, suco de laranja e aviões civis; produtos já sujeitos às tarifas da Seção 232 (como aço) também não pagam os 25%. Para o caminhão, as cargas agrícolas e minerais que mais rodam até os portos foram poupadas; o risco maior está nos manufaturados em contêiner.
O que os Estados Unidos decidiram
O Representante de Comércio dos EUA (USTR) anunciou em 15 de julho de 2026 a conclusão de uma investigação aberta um ano antes com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974. O órgão considerou "não razoáveis" práticas brasileiras em comércio digital e pagamentos eletrônicos, tarifas preferenciais, combate à corrupção, propriedade intelectual, acesso ao mercado de etanol e desmatamento ilegal.
O aviso publicado no Federal Register em 20 de julho fixa as regras:
- Alíquota: 25% adicionais sobre o valor, somados à tarifa normal do produto.
- Vigência: a partir de 0h01 (horário de Washington) de 22 de julho de 2026.
- Mercadoria em trânsito: cargas embarcadas antes desse horário e que entraram nos EUA até 29 de julho ficaram livres da sobretaxa.
- Exceções: um anexo lista os produtos que não pagam os 25%, pelo código da tarifa americana.
- Seção 232: produtos que já pagam tarifas da Seção 232, usada pelos EUA para setores como aço e alumínio, ficam fora desta medida.
Quem ficou de fora
A lista de exceções é longa e técnica. Entre os itens com peso nas exportações brasileiras transportadas por rodovia, o Anexo I inclui:
| Produto | Código americano (exemplos) | Situação na Seção 301 | Como costuma chegar ao porto |
|---|---|---|---|
| Carne bovina | 0201 e 0202 | Isenta | Carreta frigorífica ou contêiner refrigerado |
| Café | 0901 | Isento | Carreta com sacaria ou contêiner |
| Suco de laranja | 2009.11, 2009.12, 2009.19 | Isento | Caminhão-tanque |
| Celulose | 4703 | Isenta | Carreta ou ferrovia |
| Ferro-gusa | 7201 | Isento | Carreta ou ferrovia |
| Minério de ferro | 2601 | Isento | Sobretudo ferrovia |
| Aço e alumínio | Itens da Seção 232 | Fora da 301 (pagam a 232) | Carreta e ferrovia |
A consulta ao Federal Register não confirmou exceções para outros grupos que não aparecem acima; para qualquer carga específica, o exportador deve conferir o código no anexo do aviso. Em geral, manufaturados que não estão nas listas passaram a pagar os 25%.
O que aconteceu desde então
Dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) divulgados em 6 de outubro mostram que as exportações para os EUA subiram 31,9% em setembro sobre setembro de 2025, mas acumulam queda de 6,5% no ano. No mesmo mês, segundo dados do Comex Stat compilados pela consultoria Safras & Mercado, os EUA foram o principal destino da carne bovina brasileira, isenta da sobretaxa, enquanto a China cobrava 55% extra sobre o que passasse da cota.
No campo diplomático, os ministros Mauro Vieira (Relações Exteriores) e Márcio Elias Rosa (MDIC) se reuniram com o representante comercial americano, Jamieson Greer, em 30 de setembro, em Milwaukee, à margem da reunião de ministros de Comércio do G20. Segundo o MDIC, os dois lados acertaram criar um grupo de trabalho, e o governo americano deve enviar nas próximas semanas um documento com a proposta de escopo, incluindo temas tarifários e não tarifários. Não houve anúncio de mudança na tarifa.
Quanto pesa o frete perto da tarifa
Para o transportador, a sobretaxa importa porque mexe no volume embarcado, não no valor do frete em si. Os exemplos abaixo mostram o piso mínimo da ANTT para carreta de 6 eixos (tabela A) em rotas de produtos isentos, com distâncias aproximadas e cargas de premissa.
| Rota (distância aproximada) | Tipo de carga ANTT | Carga (t) | Piso da viagem | Piso por tonelada |
|---|---|---|---|---|
| Café: Sul de Minas → Santos (400 km) | Carga Geral | 30 | R$ 3.685,81 | R$ 122,86 |
| Suco de laranja: norte de SP → Santos (450 km) | Granel líquido | 30 | R$ 4.191,46 | R$ 139,72 |
| Celulose: leste de MS → Santos (700 km) | Carga Geral | 32 | R$ 5.946,22 | R$ 185,82 |
| Carne: Goiânia → Santos (950 km) | Frigorificada | 26 | R$ 9.218,90 | R$ 354,57 |
Agora compare com a tarifa. Um contêiner de manufaturados não isentos avaliado em US$ 50.000 (valor de exemplo) paga US$ 12.500 de sobretaxa ao entrar nos EUA, cerca de R$ 62.365 com o dólar de R$ 4,9892. O piso da ANTT para levar um contêiner por 450 km até Santos é de R$ 4.036,38. A sobretaxa equivale a 15,5 vezes o frete rodoviário: é ela que decide se a carga embarca, e o frete não tem como compensar.
O que o transportador deve olhar
- Carteira de clientes: quem leva carne, café, suco, celulose e gusa para exportação aos EUA tem menos risco direto.
- Manufaturados em contêiner: fábricas cujos produtos não constam das exceções podem reduzir ou adiar embarques; peça ao cliente o código do produto e confira no anexo.
- Pressão no frete: queda de volume costuma vir com proposta de frete menor. O piso da ANTT continua obrigatório.
- Negociação em curso: o documento americano prometido para as próximas semanas pode mudar a lista. Vale acompanhar os comunicados do MDIC.
Perguntas frequentes
Quanto os EUA cobram a mais dos produtos brasileiros?
25% sobre o valor, além da tarifa normal, desde 22 de julho de 2026, para os produtos que não estão na lista de exceções.
Carne bovina e café pagam a sobretaxa?
Não. Carne bovina (0201 e 0202) e café (0901) estão entre os produtos isentos no Anexo I do aviso.
E o aço?
Produtos de aço sujeitos às tarifas da Seção 232 ficam fora dos 25% da Seção 301, mas continuam pagando a tarifa da 232.
As exportações para os EUA caíram?
No acumulado do ano, 6,5%, segundo o MDIC. Em setembro, porém, subiram 31,9% sobre o mesmo mês de 2025.
Qual o piso para levar café do Sul de Minas a Santos?
Para cerca de 400 km em carreta de 6 eixos, carga geral, R$ 3.685,81, ou R$ 122,86 por tonelada com 30 t.
Para converter o frete em reais por tonelada e comparar com o piso, use a calculadora de frete por tonelada.
Faça a conta: Frete por tonelada →
Fontes e referências
- Federal Register — USTR, Notice of Action, Section 301: Brazil (91 FR 45516, 20/07/2026) — Tarifa adicional de 25%, vigência em 22/07/2026, regra de trânsito e lista de produtos isentos (Anexo I)
- USTR — Section 301 Action on Brazil's Unreasonable Acts, Policies, and Practices (15/07/2026) — Data da decisão, temas da investigação aberta em 15/07/2025 e etapas do processo
- MDIC — Reunião presencial Brasil-EUA sobre temas comerciais (30/09/2026) — Encontro com o USTR em Milwaukee, criação de grupo de trabalho e proposta americana esperada nas próximas semanas
- Agência Brasil, via Mercado&Consumo — Balança comercial tem superávit de US$ 7,74 bilhões em setembro — Dados do MDIC divulgados em 06/10: exportações aos EUA +31,9% em setembro e −6,5% no ano
- ANTT — Piso mínimo de frete, Portaria SUROC nº 22/2026 (vigência em 30/09/2026) — Coeficientes do piso usados nos exemplos de rota
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